por Samuel Pessôa Folha de São Paulo
O processo de impedimento da presidente andou. Três questões parecem-me
relevantes: a legitimidade, as consequências para o funcionamento da
democracia e as implicações para a economia.
A presidente Dilma Rousseff foi eleita com um programa oposto ao que
pratica. A presidente é legítima, pois os ritos processuais foram
observados. Mentir para ganhar eleição é permitido. Em democracia, a
legitimidade é processual. O mesmo se aplica ao processo de impedimento.
Todos os ritos -inclusive o elevado poder de reformar decisões do
Congresso, relativas ao processo e ao mérito, que tem o STF- têm sido
observados.
Adicionalmente, a lei que tipifica o crime de responsabilidade tem
redação muito ampla, aceitando muitas interpretações. O processo de
impedimento da presidente Dilma é legítimo.
Muitos alegam que processo de impedimento sem uma acusação que
criminalize a presidente na pessoa física representa grave risco ao
funcionamento de nosso sistema político. A abertura de um processo de
impedimento nessas condições banalizaria o instituto, que passaria a ter
a natureza do voto de desconfiança de um primeiro-ministro em sistema
parlamentarista, descaracterizando nosso presidencialismo.
Adicionalmente, haveria o efeito colateral de inviabilizar qualquer
política de ajustamento macroeconômico, pois as suas consequências
ensejariam o impedimento do presidente.
Discordo desse ponto de vista. Todo sistema político é um conjunto de
regras. Vários modelos são possíveis, além de eles poderem se alterar ao
longo do tempo. A "pureza" de um sistema político não é um valor em si,
não sendo, portanto, um bem a ser preservado. Este debate precisa ser
puramente pragmático.
Considero que a motivação do impedimento é a percepção de parte
considerável dos políticos -o processo indicará a extensão dessa
percepção- de que a presidente perdeu toda condição de governar. A
profundidade do estelionato eleitoral, a perda de popularidade e a visão
de boa parcela dos políticos de que o PT representa projeto hegemônico e
autoritário provocaram o início do processo.
Dilma está sendo punida não pelo ajustamento macroeconômico que está
tentando implantar sob a liderança do ministro Joaquim Levy, mas pela
profusão de mentiras que a mudança de rota na economia significou.
Creio que a abertura do processo de impedimento da presidente nessas
condições contribuirá para melhorar a qualidade das campanhas nas
futuras eleições, bem como para reforçar a responsabilidade fiscal.
Ficará mais arriscado pedalar as contas públicas.
O impedimento da presidente deve melhorar muito a gestão da política
-Temer construirá base de sustentação bem mais coesa e menos
ideologicamente heterogênea-, mas a simples troca de guarda no Planalto
não solucionará nossos problemas fiscais estruturais. Não fará aparecer
4% do PIB no caixa do Tesouro.
Haverá lua de mel com Temer, após a qual teremos de nos defrontar com a
complexidade da nossa pauta política: idade mínima na Previdência,
desindexação do salário mínimo, aumento de carga tributária etc.
No entanto, parece-me que o resultado mais provável do processo de
impedimento será a manutenção de Dilma. Difícil imaginar que com a
caneta de presidente ela não consiga 1/3 da Câmara.
extraídaderota2014blogspot





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