por Vinicius Torres Freire Folha de São Paulo
Michel Temer despacha todos os dias no escritório do impeachment. No
momento, a prioridade é ter maioria no PMDB, uns dois terços, por aí,
equivalente à quantidade de votos bastante para abrir o processo de
deposição de Dilma Rousseff na Câmara. Dado o exemplo dentro de casa,
fica mais fácil conquistar partidos amigos da onça do governo, essa
coisa que Brasília chama pelo nome cafona de "base aliada" (coalizão).
Esse é o plano lento, gradual e seguro do fechamento do cerco à
presidente, dizem um peemedebista graduado e dois líderes parlamentares
da oposição que conversam com Temer, um diálogo agora sistemático. O
fato de o governo tentar comprar peemedebistas irrita ainda mais um PMDB
cada vez mais na oposição aberta.
No PT, pelo menos nos comandos paulistas, do Instituto Lula à direção, o
desânimo cresce. Alguns petistas dizem não entender tamanha
desmobilização, pois o país ainda está dividido -há pelo que combater
ainda. No entanto, Lula está quase quieto. Nem o PT paulista nem a
direção nacional organizaram um plano de defesa de Dilma Rousseff.
A desintegração não para por aí.
Parece agora um tanto disparatado tratar de política econômica, até
porque propriamente não existe mais tal coisa no governo de Dilma. Mesmo
assim, a presidente, mais que de costume tardia e alienada da
realidade, resolve dizer que ainda está indecisa a respeito de seu plano
de fantasia para o ano que vem.
Trata-se de definir qual seria a meta de poupança do governo federal
para 2016, o superavit primário. Se por mais não fosse, tal indefinição
deve levar a uma degradação do crédito do governo logo no início do ano,
mais fogo no caldeirão das bruxas em que Dilma Rousseff e o país se
dissolvem.
No ambiente de hoje, é algo assim como se o rei estivesse a decidir se
pinta o castelo de roxinho caixão ou fúcsia psicodélico. Os ministros da
economia ainda disputam a decisão, se superavit quase zero ou de 0,7%
do PIB. No que resta de material nesse debate, os ministros digladiam-se
mais pelo sinal que seria dado ao "mercado" do que pelo realismo da
meta, na qual ninguém acredita desde já (as previsões são de rombo feio
em 2016).
Ainda assim, nessa luta restante, o ministro da Fazenda espalha recados
de que dá o fora se for voto vencido. Se valer apenas a contagem de
votos, Joaquim Levy já está vencido. Há no governo desde gente que
defende uma "virada responsável à esquerda" até aqueles para quem Levy é
agora apenas irrealista. É mais desgoverno, desorientação.
Por que descrédito ainda maior em metas fiscais? Com o fim do ano na
esquina, mal se conhece o tamanho do rombo de 2015, menos ainda a
dimensão da desgraça político-econômica que vai se abater de novo sobre o
PIB e a receita de impostos. Menos ainda se dá crédito a um governo de
Dilma Rousseff, que fraudou a contabilidade pública e gastou o que não
tinha ou, legalmente, não podia, em parte por incompetência grossa, em
parte a fim de mentir para o público e vencer a eleição.
Sabe-se muito pouco do que vai ser de PIB e impostos em 2016, verdade. O
que interessa aqui é a firme impressão, digamos, de que não dá para
confiar nas promessas ou no discernimento da presidente e de que o
governo se desintegra.
exraídaderota2014blogspot





0 comments:
Postar um comentário