Jornalista Andrade Junior

terça-feira, 21 de outubro de 2014

"O rio imaginário secou",

VOTO AÉCIO NEVES 45

  Dorrit Harazim

O Globo

Demonização do adversário tem dado frutos graúdos nas mídias sociais, que ecoam e multiplicam com gáudio a beligerância



Nesta reta final da campanha presidencial e de debates decisivos entre os postulantes cai como uma luva a famosa boutade com que Nikita Kruchev brindou Richard Nixon na pausa de uma reunião de cúpula: “Se as pessoas acreditam que ali existe um rio imaginário, melhor não dizer que não há rio algum. Melhor construir uma ponte imaginária sobre o rio imaginário.”

Citado nas memórias do presidente americano defenestrado em 1974, o jocoso conselho parece servir de bússola aos marqueteiros de Aécio Neves e Dilma Rousseff na disputa pelo voto dos brasileiros. Resta saber se os brasileiros realmente ainda acreditam em rios imaginários. As pontes retóricas construídas para os candidatos talvez estejam caindo no vazio, pois sugerem soluções simplificadas para problemas amplificados nas áreas de sempre — saúde e moradia, crescimento econômico, transporte, segurança. E acabar com a corrupção, é claro. Falar como já disse com mais verve a incomparável Billie Holiday, “o difícil eu resolvo na hora, o impossível vai levar um pouquinho mais de tempo”.
Já a estratégia da demonização do adversário tem dado frutos graúdos nas mídias sociais, que ecoam e multiplicam com gáudio a prática da beligerância política e da hostilidade pessoal. Que o diga o colunista da “Folha de S.Paulo” Gregório Duvivier, integrante do grupo satírico Porta dos Fundos, que teve sua opção pela candidatura da presidente Dilma comparada a “estar com ebola”.
O Brasil está longe de ser o único país onde esse vale-tudo alimentado por extremos domina o cenário político. Como ensina o professor Michael Ignatieff, da Universidade de Harvard, para o bom funcionamento de países democráticos, os políticos deveriam reaprender a diferenciar entre inimigos e adversários. Mas não é o que ocorre mundo afora. Seja na França, nos Estados Unidos ou no Brasil de hoje, políticos e eleitores militantes têm se afastado cada vez mais desse reaprendizado.
Adversário é aquele que você quer derrotar. Inimigo é aquele que você precisa destruir. A uma semana de o Brasil voltar às urnas para definir o rumo que quer dar ao país, vale transcrever algumas das observações de Ignatieff sobre o estado disfuncional da democracia nos Estados Unidos às vésperas das eleições legislativas americanas de 4 de novembro próximo.
Muitas das observações pinçadas em texto do acadêmico canadense, autor de “Fire and ashes: success and failure in politics”, têm serventia também para o Brasil:
“Adversários podem se transformar rapidamente em inimigos. Quando os partidos da maioria não permitem que os minoritários acedam a parte do bolo, os perdedores concluem que somente conseguirão vencer através da destruição radical da maioria.
“A etapa seguinte é encarar a política como uma guerra: não ceder em nada, não fazer prisioneiros. Há tempos a linguagem usada pelos dois lados tem sido inflamada por metáforas belicosas.
“Para onde a linguagem aponta a conduta vai atrás. Gritos de guerra emudecem a persuasão democrática. Aos poucos a beligerância e o falso virtuosismo inviabilizam qualquer cooperação.
“Para muitos especialistas [a transformação do adversário em inimigo] apenas reflete as divisões reais na sociedade como um todo. Outros analistas, mais convincentes, argumentam que, para além das facções extremas do espectro partidário, a maioria da opinião pública não está tão dividida como faz crer a política em curso.”
Em outras palavras, os campos em combate parecem ser menos o reflexo de reais divisões na sociedade do que consequência da atuação das forças beligerantes como agentes da exacerbação. Ignatieff sustenta que, ao transformar as diferenças de políticas públicas em abismos de convicção, o embate se torna visceralmente pessoal. E o objetivo final deixa de ser o de refutar a palavra do outro, mas o de lhe negar o direito de ser ouvido.
No atual momento brasileiro em que as duas candidaturas empatadas disputam cada voto palmo a palmo, a estridência da campanha pode afastar o eleitor indeciso das urnas por desgosto com a demonização sem limites. Pois esse pode ser o Plano B dos marqueteiros de lado a lado: na impossibilidade de conquistar o indeciso, melhor impedir que ele se decida pelo inimigo. Em disputa apertada, cada voto em branco ou abstenção pode valer o dobro.
Um célebre ensaio em defesa da supressão dos partidos políticos escrito em 1940 pela filosofa francesa Simone Weil acaba de ser lançado pela primeira vez nos Estados Unidos. Leitura estimulante sobre as relações entre partidos e o bem comum, o texto, que faz parte dos “Écrits de Londres” da autora, está sendo saudado com admiração. Nele, Weil desafia os fundamentos da ordem política liberal e disseca a dinâmica do poder e da propaganda dos partidos apontando para a crescente substituição da verdade pela opinião.
A conclusão da autora, mais de 70 anos atrás: partidos políticos são máquinas de fabricar paixões coletivas que exercem uma pressão coletiva sobre o pensamento individual e têm por meta final apenas seu próprio crescimento.
Diante da obscena marca de 28 legendas representadas no Congresso Nacional, é provável que não lhe faltariam leitores no Brasil.
FONTE ROTA2014

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