editorial do Estadão
Luiz Inácio Lula da Silva pode não ser culpado de tudo de que é acusado
em matéria de corrupção, mas é um atentado ao bom senso imaginar que ele
nada tem a ver com o mar de lama que sob seu nariz atingiu profundidade
inédita em 13 anos de PT no poder. Por outro lado, é igualmente
insustentável o argumento de que a Operação Lava Jato é instrumento de
uma conspiração armada para criminalizar o ex-presidente e seu partido,
uma vez que praticamente todas as lideranças políticas de alguma
expressão, todos os grandes partidos, e não apenas Lula e o PT, estão
implicados nas investigações de corrupção. É a inconfessada consciência
dessa realidade que, em desespero de causa, está levando o lulopetismo,
com a esquerda a reboque, a apostar no caos, apelando para recursos
espertos e condenáveis como transformar uma vara judicial em palanque
político e Curitiba em praça de guerra. É o que Lula pretende fazer na
capital paranaense, quando depuser perante o juiz Sergio Moro em um dos
cinco processos em que é réu por corrupção.
Para quem não tem o menor constrangimento em exaltar o “extraordinário
sucesso” da “greve geral” do último dia 28, é fácil imaginar o precioso
material de propaganda que poderão significar imagens da “manifestação
espontânea” de militantes que, nas ruas de Curitiba, farão o possível
para provocar a “repressão policial”. Petistas estimam que pelo menos 50
mil pessoas atenderão à convocação para “apoiar Lula”. Fez bem o juiz
Sergio Moro, portanto, ao divulgar vídeo nas redes sociais,
desaconselhando que apoiadores da Lava Jato saiam às ruas da capital
paranaense.
“Tenho ouvido que muita gente que apoia a Operação Lava Jato pretende
vir a Curitiba manifestar esse apoio, ou pessoas mesmo de Curitiba
pretendem vir aqui manifestar esse apoio. Eu diria o seguinte: esse
apoio sempre foi importante, mas nessa data ele não é necessário. Tudo
que se quer evitar nessa data é alguma espécie de confusão e conflito”,
afirma Moro.
Com a mesma preocupação de evitar conflitos, a Justiça do Paraná
proibiu, na última sexta-feira, manifestações públicas que impliquem a
“montagem de estruturas” na área da sede da Justiça Federal em Curitiba e
recomendou que sejam negociadas com as lideranças de manifestantes
“soluções a fim de garantir o direito de manifestação, com as limitações
ora deferidas”. Por medida de precaução, não haverá expediente no
prédio da Justiça Federal amanhã e o acesso ao local só será permitido a
pessoas cuja presença esteja relacionada com a audiência.
Todas essas medidas acauteladoras são realmente sensatas e óbvias e
demonstram que, em tese, providências oficiais cabíveis estão sendo
tomadas para evitar tumultos nas ruas de Curitiba. Na prática, porém, é
inevitável o perigo potencial de que pessoas que decidam “pacificamente”
ignorá-las acabem provocando a ação repressiva dos policiais. Esse é um
cenário que com toda certeza não desagradaria a Lula e sua turma, que
quando estão em dificuldades, como hoje, recorrem à hipocrisia de
assumir o papel de vítimas das “injustiças” e “perseguições” que “eles”
impiedosamente lhes infligem.
Está armado, portanto, mais um ato do grande circo populista do
lulopetismo. Hoje à noite, véspera do depoimento, com a provável
presença de todas as lideranças importantes do PT convocadas a Curitiba,
Lula participará de um ato ecumênico na Catedral Metropolitana. Após o
depoimento, amanhã, fará um pronunciamento público cujo teor é possível
imaginar: o “homem mais honesto do Brasil” demonstrará toda sua
indignação pelo fato de estar sendo penalizado por ter feito um governo
“a favor dos pobres”. E provavelmente repetirá a esperteza que não teve
nenhum escrúpulo de usar no vídeo de propaganda do PT veiculado na
semana passada. Ignorou, então, deliberadamente o papel de sua pupila
Dilma Rousseff na crise que o País enfrenta, para prometer, cinicamente,
como candidato à Presidência no ano que vem: “Eu tenho certeza de que
nós podemos retomar o caminho do crescimento”. Isso, obviamente, se
escapar da prisão.
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