Valentina de Botas:
Conta-se que era 22 de abril de 1500, na
Bahia, claro; já fazia uns dias que os índios espreitavam as
estranhíssimas formações no horizonte que cresciam e já ganhavam a praia
e a aparição de uns bichos sem banho, brancos, doentes, esdrúxulos, com
cabelo na cara e o corpo coberto com panos assombrou os nativos limpos,
pelados, morenos, saudáveis: Aba-pe-endé? Mamõ-pe-reikobé? Cito de
cabeça, das longíguas aulas de tupi antigo (pré-colonial) na
universidade. “Aba” (som de oxítona) é homem/ser humano; “pe” (“e”
fechado) é partícula interrogativa; “endé” equivale a “quem”; “mamõ” (o
“a” bem aberto e o “õ” muito nasalado) é “onde/lugar”; reikobé
(pronuncia-se o “r” como em “neurônio solitário”; em tupi o “r” nunca é
pronunciado como em “corrupção”) denota origem com verbos como surgir,
aparecer e vir. Então, “Aba-pe-endé? Mamõ-pe-reikobé?” pode ser
traduzido como “Quem são vocês e de onde vêm?”. O choque, o espanto, a
perplexidade foram mútuos. Dois universos se encarando nas praias de… Ó
pá, não vá nos dizer que passamos de Porto Seguro e viemos dar no Ceará!
Não. Exaustos, abatidos e estupefatos,
depois de meses no mar, Cabral e sua turma sabiam onde estavam
desembarcando. Em abril de 2013, numa solenidade para inaugurar uma obra
de combate à seca em Fortaleza, Janete afirmou que fora nas areias
cearenses que os portugueses aportaram há 513 anos então, mas era Janete
quem não fazia ideia de onde se metera ao embarcar na presidência do
Brasil, viagem que o morubixaba jeca lhe arranjou para garantir a dele
só de ida em retorno ao poder.
Ridícula e absurda, mesmo para uma nação
que naturalizou espantos, Dilma está em Curitiba figurando na farsa
espantosa que os petistas produziram em torno do interrogatório do
idolatrado chefe da organização criminosa, afinal um circo não ficaria
completo sem uma mulher sapiens. De dentro de natural confusão que a
ansiedade provoca quando é grande e não é outra coisa senão de grande
ansiedade para o ansiado depoimento que a alma de Lula transborda
segundo o próprio, o réu orientou os advogados a insistirem até o último
minuto na chicana que o livre do juiz Sérgio Moro.
Janot concorda com Janot contra Mendes;
Janot discorda de Janot contra Janot; Janot e Mendes acham que mulher
advogada é diferente de filha advogada. Nem sei nem me interessa quem
está mais errado, os dois estão fora da casinha faz tempo, representam o
nepotismo judicial-processual brasileiro e um deveria se abster nos
casos Guiomar-Bermudes e o outro renunciar. É pedir muito? No país dos
espantos, sim: logo mais, o corporativismo patológico – outra das más
formações brasileiras – vai agir para deixar tudo como está e o público
pagante dos gordos salários segue na expectativa frustrada de algum
decoro por parte das excelências que desonram os respectivos cargos. A
toda essa gente estranha a uma nação menos primitiva e que insiste em
farsas íntimas e coletivas, cabe perguntar: Aba-pe-endé?
Mamõ-pe-reikobé?
extraídadecolunadeaugustonunesopiniaoveja





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