Fernando Gabeira:O Estado de São Paulo
Não gosto de escrever sobre Gilmar Mendes. Acho-o uma figura antipática e
apreensões subjetivas costumam ser um risco ao equilíbrio e ao senso
elementar de justiça.
Critiquei Mendes quando foi ao Congresso defender a urgência da lei de
abuso de autoridade, aliando-se momentaneamente a Renan Calheiros. Não
só pela posição que defendeu, mas pela forma de argumentar. Gilmar
afirmou que operações como a Lava Jato acontecem todos os anos. O
correto seria dizer que foi a mais importante das últimas décadas.
Subestimar a Operação Lavo Jato ou mesmo opor-se a ela faz parte do jogo
democrático. No entanto, ele deu um passo adiante quando afirmou que o
vazamento poderia anular a delação da Odebrecht. Nessa conclusão, nem
seus defensores se alinharam com ele. A própria ministra Cármen Lúcia
afirmou que as delações não seriam anuladas. Uma decisão desse tipo
teria repercussão continental. Muitas acusações contra os políticos em
vários países seriam contestadas se o Brasil anulasse um documento de
importância histórica.
Gilmar perdeu nessa. Mas havia outro caminho: questionar a duração das
prisões preventivas da Lava Jato. O Supremo, segundo ele, teria um
encontro marcado com essas prisões alongadas.
Gilmar, individualmente, libertou Eike Batista e seu sócio, Flávio
Godinho. Ele argumenta, com razão, que existe grande número de presos
provisórios no Brasil e quer reduzi-lo. É uma tese. No entanto, na
prática, Gilmar resolve apenas o problema de um milionário e seu sócio,
porque à sua mesa só chegam casos patrocinados por grandes bancas de
advocacia.
Gilmar, ao conceder a liberdade a Eike, tomou o cuidado de determinar
medidas cautelares. Isso pelo menos abre uma brecha para negociação.
Parece estranho usar esse verbo, mas Gilmar Mendes lidera a maioria na
turma do Supremo Tribunal Federal (STF) que trata da Lava Jato. Ricardo
Lewandowski e Dias Toffoli fecham com ele, porque, fiéis ao PT, são do
gênero de magistrado bolivariano, que faz tudo o que seu governo quer.
A Lava Jato se encontra, portanto, diante de um grande obstáculo. Não
creio que a libertação de presos seja decisiva para delações premiadas.
Suponho que pessoas inocentes e adultas não confessam algo só porque
estão presas. Na minha suposição, o fator decisivo nas delações
premiadas é a soma de evidências que é posta na mesa, a certeza do preso
de que vai ser condenado.
De qualquer maneira vai se dar o confronto entre as pessoas que apoiam a
Lava Jato e a trinca de ministros que podem neutralizar a operação. Não
tenho fórmulas para algo tão surpreendente, uma vez que são ministros
poderosos e, como dizemos no esporte, casca grossa, no sentido de que
suportam a pressão social.
Um foco de resistência ao STF são as próprias medidas cautelares. No
caso de Eike Batista, suspeito de esconder sua fortuna, foi imposta a
multa de R$ 52 milhões. Pelo que se entende, se Eike não pagar, voltará
para a cadeia, o que me parece improvável. De qualquer forma, é claro
que uma das razões de sua prisão é evitar que maneje o que restou de sua
fortuna, parte dela formada com dinheiro oficial, isenção de impostos
e, por intermédio de Cabral, expulsão, à força, de pequenos agricultores
de São João da Barra.
O caminho será sempre o de demonstrar a necessidade da prisão. Gilmar,
Toffoli e Lewandowski vão discordar. Mas a sucessão de conflitos entre
as necessidades da investigação e o esforço do trio de ministros para
liberar presos pode levar também ao Supremo a necessidade de ampliar a
discussão, em alguns casos.
O importante ao longo do debate é contestar a ofensiva de Gilmar e seus
dois colegas com fatos, demonstrações precisas de que as pessoas
precisam continuar presas. É difícil ficar contra a tese de que
prisioneiros devem ter um limite para sua prisão provisória. Mas é
perfeitamente possível demonstrar, em cada caso, como a prisão ainda é
necessária.
No julgamento em que o Superior Tribunal de Justiça (STF) negou por
unanimidade a soltura de Sérgio Cabral, um dos motivos alegados tem
grande peso: combater a sensação de impunidade. Um peso simbólico que
vai estar presente no maior feito da trinca de juízes: libertar José
Dirceu, acusado de continuar no crime, mesmo depois de condenado no
processo do mensalão.
A principal mensagem da Lava Jato de que a lei vale para todos e que os
poderosos serão punidos sofre um abalo. Na argumentação de Gilmar, a lei
que rege as prisões provisórias está sendo cumprida. Mas o fato de que
vale apenas para quem consegue chegar à sua mesa reafirma a tese de que a
Justiça atua de forma diferenciada.
A trinca de juízes articulada para neutralizar a Operação Lava Jato
deverá enfrentar uma série de reações que não posso prever aqui. Uma das
mais eficazes seria apressar os julgamentos em segunda instância, o que
levaria os já condenados de novo à prisão.
São fatores um pouco distantes de nossa capacidade de influência. Ainda
assim, não há motive para pânico: a Lava Jato já conquistou muito e
deixou sua marca na História moderna do continente. A ideia de que a lei
vale para todos tem uma força própria e, de alguma forma, a sociedade
transformará essa expectativa em realidade. É improvável que uma trinca
de ministros consiga derrubá-la, liberando políticos e empresários
corruptos, batendo de frente com a lógica de investigações, preocupadas
em evitar a destruição de provas e encontrar o dinheiro roubado.
Sem dúvida, começa uma fase difícil para a Lava Jato e aqueles que a
apoiam. Lutar contra uma forca instalada no coração do Supremo não é
algo comum.
Mas também diria que concordo com a ideia de que a História, na maioria
dos casos, não apresenta problemas sem solução. É apenas mais uma pedra
no caminho. O maior escândalo de corrupção foi posto a nu. O corpo é
muito grande para três juízes se livrarem dele.
extraídaderota2014blogspot





0 comments:
Postar um comentário