editorial do Estadão
A maioria absoluta dos brasileiros – 90% – não investe em previdência
privada e apenas 38% têm alguma forma de poupança ou investimento,
mostrou recente pesquisa do Datafolha. Esses números são o retrato de um
país em que poucos se preocupam em poupar para o futuro. Não é por
outro motivo que, na mesma pesquisa, mais de 70% dos entrevistados se
disseram contrários à reforma da Previdência, pois essa reforma tornará
um pouco mais restrito o acesso à aposentadoria. Pode-se inferir que a
maioria dos contrários às mudanças são justamente aqueles que não se
precaveram para o momento em que deixarão de trabalhar e ter renda.
O atual modelo de Previdência – bancado pelo conjunto dos trabalhadores
na ativa e também pela sociedade em geral, quando há déficit a ser
coberto – desestimula a poupança porque há a expectativa de usufruir,
precocemente, de benefícios que deveriam ser reservados àqueles sem
condições de trabalhar em razão da idade avançada. A idade média dos
homens brasileiros que se aposentam é de 59,4 anos, enquanto nos países
da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a
média é de 64 anos. No México, são 72 anos, e no Chile, 69.
Ademais, a Previdência é generosa com seus beneficiários. No Brasil, a
taxa de reposição (razão entre o valor da aposentadoria e o salário) é,
em média, de 76%, contra 56% na Europa, segundo dados do Ministério da
Fazenda.
É evidente que a Previdência não é o único fator a inibir a formação de
uma cultura de poupança no Brasil. Na verdade, o sistema previdenciário
talvez seja apenas a parte mais vistosa de um amplo conjunto de
benefícios que o Estado, à custa de sua própria solvência, é obrigado a
entregar aos cidadãos conforme mandam a atual Constituição e diversas
leis ordinárias.
Os legisladores do País costumam ser criativos quando se trata de
inventar maneiras de fazer o Estado bancar benesses inexplicáveis. O
resultado é que vivemos numa “república da meia-entrada”, na qual os
grupos organizados da sociedade conseguem arrancar do Estado “direitos”
que não podem ser discutidos, pois integram o que o discurso populista
convencionou chamar de “justiça social”, cujo questionamento é
equiparado a blasfêmia.
Quanto mais “direitos”, porém, menor é a chance de que a efetiva justiça
social, sem aspas, seja feita. Não há nenhum paradoxo aí. Os “direitos”
que as minorias organizadas defendem como compensações por séculos de
desigualdade social na verdade atuam para ampliar o fosso entre ricos e
pobres no Brasil. Obrigado a cumprir todas as exigências previstas nas
muitas leis que visam a preservar os “direitos” dos aposentados, dos
trabalhadores, dos estudantes, dos servidores públicos e de outros
tantos beneficiários organizados, o Estado torna-se financeiramente
incapaz de fornecer os serviços públicos que são utilizados
majoritariamente pela população mais pobre, supostamente defendida pelos
movimentos sociais que vivem de reivindicar os tais “direitos”. O fato
de que metade do País ainda não dispõe de saneamento básico deveria
bastar para comprovar esse terrível efeito colateral da generosidade
estatal.
Num ambiente como esse, em que a aritmética perde feio para a demagogia,
a cultura da poupança dificilmente vinga, pois há poucas razões para
que o indivíduo se disponha a guardar dinheiro se o Estado, por lei, se
compromete a bancar todas as necessidades básicas dos cidadãos, e também
vários privilégios para alguns. A taxa de poupança brasileira é uma das
mais baixas entre os países emergentes. Nos últimos anos foi pouco
superior a 15% do PIB, enquanto na China é de cerca de 50%.
Sem poupança interna, o País é obrigado a recorrer à poupança externa,
ou seja, tem de se endividar, pagando juros altos, para honrar seus
compromissos e fazer os investimentos necessários para seu
desenvolvimento. Também é obrigado a aumentar impostos – o Ministério da
Fazenda calcula que a manutenção do atual sistema previdenciário
representará um aumento de quase 10% da carga tributária nos próximos
dez anos.
Enquanto houver estímulo ao consumo e à imprevidência, como querem os
populistas, será praticamente impossível romper esse círculo vicioso que
nos condena à mediocridade.
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