Rubens Barbosa: O Estado de São Paulo
A sociedade civil desde 2013 tem-se manifestado por mudanças profundas
no modo de operar da classe política. Nos últimos meses, em consequência
da sobreposição das crises econômica, política e ética, a situação se
agravou.
A crise política desaguou no impeachment da presidente da República e na
substituição do governo anterior e do partido que tantas expectativas
havia criado. A crise na economia colocou o Brasil na recessão mais
grave de sua história. A crise ética revelou uma corrupção sistêmica em
nível jamais visto, com a cumplicidade (exposta mais uma vez pela
Odebrecht) entre uma classe política alheia aos anseios da população e
um setor empresarial em que grandes empresas, acomodadas às benesses do
Estado, se dispuseram, juntos, a sugar os recursos públicos por meio de
uma assombrosa e despudorada ação ilícita.
A paciência de homens e mulheres em todo o País está chegando
perigosamente ao seu limite. A qualidade do serviço público, sobretudo
em saúde, educação e segurança, agravada com a crise econômica e com a
má gestão de muitos governantes, aumenta a frustração e a indignação da
população. A voz da maioria silenciosa começa a manifestar-se de forma
quase anárquica, como ocorreu na ocupação recente do plenário da Câmara
dos Deputados e na violência das recentes manifestações em Brasília.
O clamor pela reconstrução do Brasil cresce, mas ainda não se vê o
aparecimento de lideranças com sensibilidade para assumir uma agenda
clara e contundente que de fato proponha passar o Brasil a limpo. As
discussões em Brasília mostram o descolamento dos interesses
corporativos e dos congressistas da verdadeira realidade da sociedade
brasileira.
A incompetência e os privilégios, em muito setores, estão por demais
arraigados e certamente haverá forte reação a qualquer mudança que afete
os seus interesses. Os movimentos ideológicos, que se recusam a aceitar
os custos das políticas equivocadas dos últimos anos, procurarão
incendiar o Brasil na pretensa defesa dos mais pobres, que hoje estão
pagando pelo abismo em que se encontra o País.
Se nada for feito, o Brasil em poucos anos, será uma imensa Grécia, sem
recursos para pagar o salário dos funcionários (como já se verifica no
Rio de Janeiro) e a pensão dos aposentados, sem falar na impossibilidade
de o governo fazer os investimentos necessários para melhorar os
serviços públicos, manter os programas sociais e mesmo defender o
território nacional das novas ameaças que o crime transnacional (armas e
drogas) representa, como já estamos vendo em alguns Estados.
A sociedade brasileira vai ter de enfrentar, mais cedo ou mais tarde, o
debate democrático para a transformação de toda uma cultura: hábitos e
costumes, práticas e políticas questionadas no mundo de hoje. Estamos
vendo a reação em diversos países pela ação política de parcela da
população, frustrada e desiludida com a classe política e pelo
esquecimento de seus anseios e frustrações pelas elites dirigentes.
Além da melhoria dos serviços públicos já referida, torna-se urgente uma
ampla reforma política que corrija a proliferação de partidos, trate do
financiamento das campanhas reduzindo os interesses especiais e a
corrupção. Mudanças que simplifiquem a vida dos cidadãos, restrinjam os
interesses corporativos, inclusive no funcionalismo público, melhorem a
gestão governamental e as boas praticas éticas, reduzam
significativamente o custo para o setor produtivo dos impostos, da
legislação trabalhista, da deficiente e precária infraestrutura e da
burocracia excessiva. E que melhorem a gestão dos programas sociais para
permitir a mobilidade ascendente dos menos favorecidos por meio de
estímulos para sua entrada no mercado de trabalho. O ambiente de
negócios tem de ser mais estável e transparente, até mesmo pela redução
do protecionismo e de práticas que beneficiem interesses particulares.
Nesse sentido, temos de começar a discutir temas tabus, como o grau de
abertura da economia para incluir o Brasil nas cadeias produtivas de
valor agregado e nos fluxos dinâmicos de comércio para estimular a
reindustrialização o País.
O debate sobre as reformas estruturais (teto para os gastos públicos,
previdência social e trabalhista), apresentadas pelo atual governo ao
Congresso, é apenas o começo de um processo que deverá ser aprofundado
em 2017 e discutido na eleição de 2018.
O Instituto de Relações Internacionais e de Comércio Exterior (Irice)
teve a iniciativa de buscar apoio para organizar um amplo debate público
a ser realizado ao longo dos próximos 12 meses com uma série de cinco
encontros sobre as reformas necessárias para que o Brasil volte a
crescer e se modernize. É preciso que o Congresso Nacional ouça a voz da
sociedade civil de modo a que essas reformas sejam aprovadas. Para
debater a agenda de reformas estão sendo convidados representantes de
diferentes think tanks e
movimentos de mobilização social que surgiram no País nos últimos
tempos, entre eles, o Movimento Brasil Eficiente, o Movimento Brasil
Competitivo, o Humanitas 360, o Centro de Liderança Pública, o Movimento
Vem Pra Rua e o Movimento Brasil Livre.
O primeiro encontro foi realizado em 25 de novembro e teve como temas a
reforma política, as reformas estruturais, em especial a fixação do teto
dos gastos públicos, e a legislação sobre corrupção.
A partir de março de 2017, a cada três meses o debate, com visão de
futuro, vai continuar a focalizar o aprofundamento dessas reformas. A
importância dessa agenda vai além das considerações macroeconômicas. O
debate, sempre colocando o Brasil em primeiro lugar, pretende evidenciar
como essas reformas podem afetar a vida das pessoas, das empresas e
qual o prejuízo para o País caso elas não sejam aprovadas e
implementadas.
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