MÍRIAM LEITÃO O Globo
A era PT teve várias
fases e muitos ângulos. As louvações e as críticas gerais são sempre
imperfeitas. Houve a primeira fase da política econômica que ajudou a
estabilização da economia, houve política anticíclica na hora certa. Mas
o governo perdeu o ponto de interromper os estímulos e passou a ser
irresponsável na área fiscal e no combate à inflação. Isso levou o país à
crise.
Não se pode separar os erros e os acertos entre Lula e
Dilma. É mais sútil. No período do exministro Antonio Palocci, uma
equipe econômica competente fez a política que reduziu a inflação e
arrumou o país. O medo do PT e das políticas que defendera durante a
campanha elevou o dólar e a inflação e gerou uma crise de confiança.
Foi
nesse momento que Palocci e o presidente do Banco Central Henrique
Meirelles trabalharam em conjunto para combater a crise. A inflação
chegou a 17% em 12 meses até maio de 2003. Sem uma política econômica
correta, ela continuaria subindo e certamente a história seria outra. O
país não suportaria o escândalo do mensalão, mantendo Lula no cargo, se a
inflação estivesse fora do controle.
O combate ao descontrole
dos preços por uma política fiscal responsável e uma política monetária
firme foi tão eficiente que em março de 2007 a inflação havia caído para
2,96% em 12 meses. Em 2005, os ministros Palocci e Paulo Bernardo
propuseram a meta do déficit nominal zero. Naquele momento, seria
possível e o ideal é que tivessem reduzido a meta inflacionária.
Foi
quando as ideias antigas do PT deram a resposta na voz da então chefe
da Casa Civil Dilma Rousseff. Ela considerou a ideia “rudimentar”.
Estava ficando mais forte e, em torno dela, os economistas da velha
guarda do PT se reuniram. Após a queda de Palocci, em 2006, a política
econômica permanece com alterações periféricas, mas o grupo que havia
ajudado Palocci já estava fora e restava apenas Meirelles, no BC,
defendendo a política monetária.
O economista e presidente do
Insper, Marcos Lisboa, peça fundamental da equipe do primeiro governo
Lula, avalia que o Brasil viveu duas fases de política econômica desde
os anos 80:
— A primeira fase é mais liberal, voltada para
inserção do Brasil na economia mundial, e vai do final do governo Sanery
até o meio do período Lula. Depois, voltase à política de Geisel.
Visões diferentes na economia há em todos os partidos, mas no governo do
PT a política nacional desenvolvimentista ganhou força com a saída de
Palocci e predominou após 2008.
A crise internacional de 2008 foi
o momento considerado perfeito para a guinada mais heterodoxa.
Primeiramente, as políticas de estimulo fiscal e monetário protegeram o
país do pior da crise, mas em 2010 passaram a ser usadas com o objetivo
de eleger a ex-presidente Dilma. No seu governo, esse caminho do
descontrole fiscal, benefícios a empresários, intervencionismo e
descuido com a inflação se aprofundou.
— A estagnação dos anos 80
é reflexo dos erros dos anos 70. E o crescimento dos anos 2000 é
resultado das reformas dos anos 90. O Brasil voltou a errar no final do
governo Lula e no governo Dilma e agora precisa fazer reformas
estruturais, de longo prazo, para garantir o crescimento da década
seguinte — disse Lisboa.
Um dos piores erros foi na política
energética. Dilma errou ao segurar os preços em 2013 e depois teve que
soltá-los de uma só vez em 2015. Quando foi feito o realinhamento
tarifário, não havia como manter a repressão aos preços porque as
empresas estavam quebrando. Dilma cometeu o erro sozinha: quis manipular
o setor elétrico, em uma intervenção que se revelou desastrada, com o
objetivo de usar isso em campanha. Hoje, reescreve a história e culpa a
falta de chuvas. Mas o período seco só agravou a crise que ela criou.
Na
área social, as políticas de transferências de renda ficaram mais
fortes e foram responsáveis pelos resultados favoráveis em inclusão e
aumento de consumo. Mas se não houvesse a estabilização monetária elas
não teriam tido o mesmo efeito. Há muitos mitos nos números da retirada
da pobreza. O PT fala deles como se fossem estáticos, mas a economia é
dinâmica: ao gerar a crise, o PT retirou parcelas do grupo dos
incluídos.
O governo Temer já está errando, na visão de Marcos
Lisboa, quando faz reajuste salariais de servidores que beneficiam “o
topo da pirâmide” e manda sinais ambíguos sobre o ajuste fiscal. É na
economia que a política se perde ou se encontra.
extraídadeavarandablogspot




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