Valentina de Botas:
Quando era perguntado a Aécio Neves, na campanha de 2014 à presidência, por que ele, assessores ou apoiadores não falavam dia e noite do que todos sabíamos – da roubalheira petista, das mentiras petistas, do abuso do Estado na campanha petista –, a resposta olhava para a frente, mas não enxergava a entrevista de Aloysio Nunes: “o povo sabe, vamos olhar para a frente”. Olhamos. Cronos veio e crau!, nos jogou para trás; em alguns índices socioeconômicos, o recuo foi de 30 anos; em termos de ideias e pensamento quanto à concepção de Estado, de sociedade e de modelo econômico, a coisa está ali entre o fim do século 19 e o meio do 20, com fixação patológica entre a Guerra Fria e a ditadura militar, temperada pelo fascismo avermelhado que se apropriou de bandeiras historicamente estranhas a ele, como a igualdade de gênero e de raça (claro que isso não vale para os judeus no antissemitismo menos ou mais protuberante nas ramificações locais do esquerdismo de senilidade repaginada), para revigorar o discurso caquético ancorado, agora, na defesa das ditas minorias e sempre desprezando a minoria mais minoritária: o indivíduo.
Publicidade
Claro que essa velharia odiosa não é predominante na sociedade brasileira, ela só é muito mais barulhenta. Estridentes e minoritários, embora disseminados, seus defensores, representantes e comparsas – no lulopetismo, na imprensa, na academia dentro e fora das universidades, nas artes e literatura, nos movimentos sociais, na TV, na internet, nas reuniões de condomínio – falam até exaurirem quem ouve para ter a impressão de que existem. E vão se fazendo existir no discurso, na transfiguração da realidade em narrativas que a fraudam. Quando Aécio, Temer e Aloysio dizem que não é preciso falar por que o povo sabe, eles ignoram que o povo quer saber se eles sabem ou se está sozinho nessa porcaria toda. É incrível e exasperante que homens experientes e de boa-fé não se apercebam disso.
Os vermelhos pró-fora-temer-diretas-já passaram cinco noites tocando o terror no centro de São Paulo, causando prejuízos a pequenos comerciantes e provocando a PM-do-Alckmin; quando fizeram a manifestação pacífica na Paulista, ela acabou em vandalismo. As manifestações verde-amarelas-pró-impeachment rechaçaram o assédio dos cretinos pró-intervenção-militar e os black blocks nem sequer apareceram, pois sabiam que não seriam acolhidos. Agora, os vermelhos reclamam que a PM-do-Alckmin trata as manifestações vermelhas e as verde-amarelas de modos diferentes. Acontece que uma manifestação pacífica que acaba em vandalismo e uma manifestação pacífica que acaba pacificamente são diferentes. No entanto, quem vai ser monitorada (de que forma?) pelo Ministério Público Federal é o lado da lei.
Enquanto isso, o sindicalismo que rapinou os fundos de pensão organiza uma greve pró-fora-temer-diretas-já, segundo o próprio vigarista que a lidera, num evidente abuso do direito de greve; leis e direitos, para essa gente, só servem se a favor ou usados abusivamente. Enquanto isso também, o inexplicavelmente ainda solto governador Fernando Pimentel (PT-MG) paga com dinheiro do povo mineiro um evento pró-fora-temer-diretas-já. Imagine se o Alckmin, aquele da PM-do-Alckmin, fizesse um evento pró-temer em São Paulo com dinheiro dos impostos dos paulistas! E a mulher-honrada-que-não-tem-conta-na-suíça encheu quatro caminhões de mudança com pertences da Instituição da Presidência da República, numa ação classicamente conhecida como roubo, tecnicamente definida como patrimonialista e popularmente traduzida por falta de vergonha na cara.
Tudo naturalizado na metafísica eficaz segundo a qual há o discurso vigarista do bem, o vandalismo do bem, a rapina do bem, o esbulho institucional do bem e a pilhagem do bem. Um exemplo sutil porque o fenômeno também se alimenta de sutilezas: na Veja.com, a notícia não assinada sobre um delinquente ter jogado uma bomba num carro estacionado na garagem de uma casa no Alto de Pinheiros, ao final da manifestação vermelha de domingo, informa que o ataque se deu a 50 metros da “mansão de Michel Temer”. Se fosse a 50 metros da casa ou da residência de Michel Temer, a notícia não entregaria a mensagem pretendida. Não estou entre aqueles que acham que “a Veja se vendeu ao PT” logo agora que ele não tem como pagar, mas sei ler e, apesar de Leandro Karnal afirmar que todos os leitores da revista são “tapados e fascistas, sem exceção”, os comentários, quando acessei a notícia, eram todos de autodeclarados não leitores que execravam Temer por ter uma mansão e sequer mencionavam o carro destruído num ataque criminoso: fascismo do bem definido por quem fala.
Quando um político olha para a frente na busca pelo futuro, ele tem a obrigação de contemplar na sua perspectiva o presente e adjacências imediatamente anteriores ou o Brasil continuará se transformando numa espécie de parque temático de canalhices. Poderosamente entristecedor. O espantoso é a naturalização dessa paisagem de clareza solar, clareza esta a um só tempo consoladora e intrigante; tanto que o povo sabe, continua faltando que os políticos que combatem tal paisagem mostrem que também sabem. Antes que Cronos faça a próxima refeição.
EXTRAÍDADACOLUNADEAUGUSTONUNESFEIRALIVREVEJA





0 comments:
Postar um comentário