MONICA DE BOLLE ESTADÃO
Dia da Independência,
feriado, teto furado? Transcorridos sete dias do impeachment de Dilma
Rousseff e do impasse constitucional por ele criado, a votação fatiada
do Artigo 52, há mais dúvidas do que se imaginava em relação ao início
do governo Temer. A base aliada está rachada? Há problemas na
articulação interna do PMDB? Por que Henrique Meirelles, depois de tanto
propalar a importância da reforma da Previdência, disse que não há
pressa? Quais os riscos para a proposta de emenda constitucional que
prevê a criação do teto de gastos? Será o teto erguido com graves
problemas de infiltração? Como as revelações de infiltrações abjetas nos
principais fundos de pensão influenciará as perspectivas para a
retomada do crescimento? A essa altura, já é possível imaginar escrever
um artigo que contenha apenas perguntas.
Em meio à lista de
intermináveis perguntas que o cenário pós-impeachment impôs, houve
somente uma resposta. Ao contrário do que ainda pensam alguns analistas
do mercado, o Banco Central não haverá de reduzir os juros tão cedo. Os
14,25% ao ano que aí estão, conosco permanecerão. O comunicado do Copom
após a última decisão de política monetária – decisão tomada no dia
fatídico de Dilma, e, portanto, por esse evento ofuscada – com a ata da
reunião recém-divulgada detalham todos os fatores condicionantes para
que o BC inicie a tão almejada redução dos juros.
É preciso que:
“a persistência dos efeitos do choque de alimentos na inflação seja
limitada; os componentes do IPCA mais sensíveis à política monetária e à
atividade econômica indiquem desinflação em velocidade adequada; ocorra
redução de incerteza sobre a aprovação e implementação dos ajustes
necessários na economia, incluindo a composição das medidas de ajuste
fiscal, e seus respectivos impactos sobre a inflação”. Contudo, o
documento ressalta que a alta dos preços dos alimentos persiste, que a
velocidade do processo desinflacionário tem sido menor do que a
desejada, que as projeções de inflação de curto prazo estão acima de
níveis desejáveis.
O Copom também fez outra mudança importante em
seu comunicado. Deixou de explicitar expectativas em relação às
tendências futuras da inflação para enfocar os fatores econômicos que
poderiam alterar suas decisões ao longo do tempo. Dito de outro modo,
aquela história de falar em horizontes de convergência que a experiência
recente mostrou jamais se confirmar cedeu ante o desgaste dessa
estratégia e a necessidade de ser, de fato, mais eficaz explicar quais
são os temas que fariam o Banco Central mudar de ideia em relação aos
rumos futuros dos juros.
Vem em boa hora essa alteração na
comunicação, ainda que sua tendência seja a de amarrar o Copom a
determinados desfechos. O Copom diz que não, que seus fatores
condicionantes não são nem necessários, nem suficientes para que comece a
pensar na distensão da política monetária. Contudo, é difícil acreditar
que farão cosquinha nas taxas de juros, caso as reformas necessárias
não passem no Congresso, ou que demorem a passar.
Para quem
achava que a primeira queda da Selic poderia vir em outubro ou novembro,
o sonho acaba de ficar mais distante. O ministro da Fazenda já
sinalizou que a reforma da Previdência haverá de demorar mais, para
consternação de alguns membros da base aliada, notadamente para o PSDB.
Além disso, há dúvidas ponderáveis sobre em que consistirá o teto para
os gastos e sobre se, como disse-me recentemente Luiz Roberto Cunha,
estará repleto de goteiras.
Caso venhamos a ter um teto para os
gastos com goteiras, o que fará o Banco Central? Continuará a segurar os
juros em 14,25% ao ano? Tomará a iniciativa de reduzi-los, reconhecendo
que a economia brasileira já não aguenta taxas de juros, descontadas as
expectativas de inflação, de 8,5% ao ano? Ao que transparece da ata,
provavelmente não, embora devessem considerá-lo. Diante dos mais
recentes descalabros políticos, o cenário mais provável é de que as
incertezas perdurem. Incertezas que infiltram as paredes e o teto,
tornando o País um verdadeiro espetáculo de mofo e degradação.
*Economista, pesquisadora do Peterson Institute For Internacional Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University
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