EDITORIAL FOLHA DE SP
Ninguém, para ser
rigoroso, pode alegar surpresa diante da Operação Greenfield deflagrada
pela Polícia Federal para apurar desvios nos fundos de pensão de
empresas estatais. Há muito se conhecem a baixa qualidade e os indícios
de corrupção nas decisões de investimento dessas entidades capturadas
por interesses políticos.
O terreno para fraudes, cobiçado em
decorrência dos recursos bilionários dos maiores fundos de pensão,
vicejou sob a tradição brasileira de misturar interesses públicos e
privados num capitalismo de compadrio revoltante para os que lutam no
cotidiano da economia para manter negócios e empregos.
A
investigação tem como alvos Funcef (fundo dos funcionários da Caixa
Econômica Federal), Previ (Banco do Brasil), Postalis (Correios) e
Petros (Petrobras), além de dezenas de empresas e pessoas físicas. Na
mira se acham investimentos fraudulentos em troca de propina, com
prejuízos estimados em R$ 8 bilhões, de início.
Ao aportar
recursos em projetos com valores superestimados, o esquema na prática
seria a reprodução do superfaturamento de contratos e serviços
identificados pela Operação Lava Jato na Petrobras, não por acaso
aplicações em energia, petróleo e infraestrutura.
O caso traz à
luz o que nunca se deixou de suspeitar. Fundos de pensão de estatais
sempre foram usados como alavanca do capitalismo nacional, participando
de grandes projetos na companhia de segmentos escolhidos da elite
empresarial.
Nesse ambiente promíscuo, é enorme o espaço para
tráfico de influência com os recursos dos beneficiários dos fundos —e,
em última instância, do contribuinte, uma vez que o erário também lhes
faz generosos aportes.
A tendência em ocasiões assim é pedir
regras mais duras. Tramita na Câmara dos Deputados, por exemplo, projeto
para modernizar a gestão dos fundos, exigindo-se experiência de
dirigentes e proibindo-lhes vinculação partidária.
Não faltam regras, contudo, para que decisões de investimento sejam prudentes e isentas. O problema é que não são respeitadas.
Os
fundos são regulados pela Comissão de Valores Mobiliários e pela
Superintendência Nacional de Previdência Complementar. É o caso de
perguntar onde ambas estavam, nos últimos anos, enquanto os fundos
estatais acumularam rombos da ordem de R$ 50 bilhões.
Urge
separar por completo os interesses dos participantes dos fundos de
pensão daqueles dos políticos e das empresas que recebem recursos. O
escrutínio policial é bem-vindo, mas cabe ir mais longe e incluir nele
também os fundos que gerenciam recursos de servidores públicos estaduais
e municipais.
extraídadeavarandablogspot




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