ARNALDO JABOR O Globo
Li outro
dia uma frase aterrorizante que nos explica — hoje. Quando o escritor
Primo Levi foi preso em Auschwitz, ele perguntou algo a um oficial do
campo. O sujeito respondeu: “Hier ist kein Warum” (aqui não há o
porquê). Estamos sem porquês.
Aquela fotografia de um menino
sírio em Aleppo, coberto pelos restos de uma explosão, mostra nossa
solidão diante do Mal. Existe hoje no mundo um novo mal, um mal sem
culpados visíveis. O Mal no mundo atual é o “incompreensível”.
Quando
Hitler atacou o mundo com o nazismo, quando Stalin matou mais gente que
o alemão, ainda havia uma sórdida “finalidade” em seus atos; sua
violência era justificada por uma “causa” a ser atingida: ou o Milênio
Ariano ou o paraíso comunista. Para eles todos os atos eram perdoados
por essa intenção de futuro. O Futuro de nosso Presente só nos promete
tragédias anunciadas.
O Mal ficou difuso. Onde está o mal, hoje?
No terror, no meio da miséria, entre fezes? Os fanáticos do Islã querem
destruir o demônio — que somos nós. Os atentados são cada vez mais
terríveis, procurando apagar a alegria da vida ocidental que tanto
invejam.
A Coreia do Norte, governada por um porco, ameaça-nos
com a bomba atômica. O Maduro destrói seu país entre assassinatos e
fome, o Assad arrasa a Síria e exporta milhões de pobres diabos; Putin,
aquele agente do mal, não permite a queda do ditador russo. Aqui, mais
perto, na América, temos o Trump, que é o Mal encarnado; para ele, os
democratas são os cães infiéis, exatamente como pensam os muçulmanos
radicais que matam pelo prazer de nos horrorizar com degolamentos na
mídia.
Os terroristas injetaram o arcaico no moderno. No 11 de
Setembro, os aviões viraram balas, mísseis. Osama nos fez ver o lixo que
se escondia sob o progresso, a “razão” suja do Ocidente sob o governo
do estafermo do Bush. Osama desmoralizou a América, nosso mito de
competência, e comandou todos os erros pavorosos da vingança americana.
Nunca
a América errou tanto. O horror atual tem várias origens, mas uma delas
é o Bush. O Mal ocidental escondido sob o “Bem” apareceu — o eixo
ocidental do Mal. Hoje, com o EI, a arma maior é a internet, doutrinando
malucos para o mal.
Antigamente, era mole. O mal era o
capitalismo, o bem era o socialismo. Todos fingiam ser o Bem. Ninguém
dizia, de fronte alta: “Eu sou o mal!”. Ou: “Muito prazer, Diabo de
Oliveira...”.
Agora, os intelectuais orgânicos, padres de
esquerda, caridosos de carteirinha, cafetões da miséria, santos
oportunistas estão em pânico. Pensam: “se não houver um mal claro, como
seremos bons?”. Sente-se no ar uma sede, uma fome de Mal. Jovens
neonazistas declararam outro dia na Áustria: “não aguentamos mais a
monotonia da democracia”. O mal é excitante. Ninguém quer ser livre. O
sucesso planetário dos evangélicos, as massas delirando com ídolos de
rock mostram que, no mundo inteiro, as massas querem slogans
irracionais, querem o fundamentalismo da crueldade prática, das soluções
finais. Infelizmente, como disse Baudrillard: “contra o mal, só temos o
fraco recurso dos direitos humanos”. O Mal parece uma forma perversa de
liberdade. O mundo atual está numa sinuca de bico. Não há mais
dualidades. Inimigos de “vários matizes” estão disseminados nos países. O
Bem não sabe para onde vai, não sabe nem mesmo se ainda é o Bem. Desde
que me entendo, nunca vi uma mutação tão intempestiva. Não é nas
mentalidades, mas na matéria da vida, nas engrenagens que movem o mundo.
Hoje,
a desesperança com qualquer hipótese de totalidade está parindo novas
formas larvais de sobrevivência neste mundo decepcionante.
Esse
mal em polvilho, em pó, essa chuva de mal se “balcaniza” em ilhas
ideológicas e psicológicas — o mundo se “desunifica” em vazios, em
avessos, em “buracos brancos” que vão se alargando à medida que o tecido
da sociedade “linear” se esgarça. É um arquipélago de zonas de terror.
Se, antes, havia a polarização de ideologias em oposições binárias,
pretos contra brancos, socialismo versus capitalismo, isso vinha da
ideia de “sistema e contrassistema”, de “cultura e contracultura”. Esta
oposição acabou.
Um dos dramas de hoje é que não há mais fatos —
só expectativas. A história vai devagar e por linhas tortas. A última
grande mudança foi a queda das torres em NY. Em dez minutos, nossa vida
mudou. O que houve no mundo foi o fim do sonho da unidade, o fim da
possibilidade de uma “grande narrativa” — como dizem os pós-utópicos,
perplexos e com uma pontinha de alívio da obrigação de grandes
“relevâncias”. O que acabou foi o “UM”. Acabou o anseio totalizante de
se achar uma única resposta, desejo antiquíssimo de tudo reduzir a um
símile do corpo humano: a sociedade funcionando como um organismo sob
controle.
Como escreveu Paul Valéry em seu texto “A política do espírito”:
“A
desordem do mundo atual nos habitua intimamente a ela; nós a vivemos,
nós a respiramos, nós a fomentamos e ela acaba por ser uma verdadeira
necessidade nossa. Nós encontramos a desordem à nossa volta e dentro de
nós mesmos, nos jornais, nos dias e noites, em nossas atitudes, nos
prazeres, até em nosso saber”.
O mal se espalha em formas cada vez mais inventivas. O Mal tem imaginação.
No
Brasil é diferente. O que nos assola não é o grande Mal. O perigo aqui é
o pequeno mal, enquistado nos estamentos, nos aparelhos sutis do
Estado, nos seculares dogmas jurídicos, nos crimes que são lei. O mal do
Brasil não está na infinita crueldade de elites egoístas; está mais na
sua cordialidade. O mal esta no mínimo.
Aqui, o perigo é o Bem.
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