Miguel Reale Júnior: O Estado de São Paulo
Após a Olimpíada e o impeachment, temos do que nos orgulhar. O pior
legado do lulopetismo foi a legitimação de ser “bagaceiro”, elevando-se a
esperteza a valor nacional ao se qualificar como positivo o jeitinho
para prosperar na sinecura, no descaso com as finanças públicas e, o
mais grave, no desvio de dinheiro das estatais.
Glorificava-se no lulopetismo a mera improvisação, tecendo louvação ao
fato de nada se ler e, em contrapartida, desprezar o mérito, o trabalho
cotidiano, o cuidado no aprendizado. A Olimpíada, todavia, mostrou um
outro lado, o Brasil que deu certo: pessoas humildes saíram de situações
de conflito e de dificuldades para o pódio graças à superação dos
obstáculos pela dedicação contínua em busca de objetivo que dependia
primacialmente apenas delas mesmas.
O Brasil multicultural, do samba e do chorinho, do carnaval e do frevo
deve conviver com o Brasil do esforço e da persistência, do certo e do
justo, com vista ao sucesso como fruto do mérito, e não da malandragem. É
exatamente isso que revelou a Olimpíada, com colorido das festas de
abertura e de encerramento, com a vibração de uma torcida que toma
partido, com a acolhida simpática do povo carioca e a emoção dos nossos
medalhistas.
Para ser sério e ético não é preciso ser sisudo. Conjugam-se alegria,
espontaneidade, samba no pé, gingado no corpo e sorriso no rosto com
seriedade na labuta diária, seja no esporte, no estudo, na fábrica ou na
prestação dos mais variados serviços.
O esporte, individual ou coletivo, não permite ser esperto para vencer. O
exame antidoping denuncia. Não basta ter dom, ou propensão para
determinada modalidade esportiva, é preciso treino todos os dias, apuro
na técnica transmitida pelos experts. Esse é um território próprio do
merecimento, no qual o estelionato da invenção milagrosa inexiste.
Atletas, administradores e voluntários dos Jogos Olímpicos demonstraram
que o nosso povo, ao lado da espontaneidade e da simpatia, também tem a
capacidade de superar percalços, vencendo pela dedicação competições e
desafios da organização de um evento imenso. Podemos ter orgulho do
nosso país tropical, cheio de método e eficiência.
O processo de impeachment é outro ponto do qual o Brasil se pode
orgulhar. Esse processo contra uma presidente que tinha base congressual
tramitou com dificuldades, foi submetido a rito determinado pelo
Supremo Tribunal Federal (STF) e não causou a menor atribulação às
instituições da República.
A acusação – malgrado cortada pelo então presidente da Câmara dos
Deputados, Eduardo Cunha, no que respeitava aos fatos de
responsabilidade da presidente na proteção dos corruptos diretores da
Petrobrás – continha imputações relevantes de lesão às finanças públicas
em 2015.
Durante o processo, prestigiou-se até com exagero a defesa, para não se
alegar o mínimo constrangimento. Foram ouvidas 40 testemunhas, foi
realizada perícia. Razões de quase 600 páginas foram apresentadas pela
defesa e novas testemunhas foram indagadas, além da própria presidente,
que prestou declarações destoantes da realidade, próprias de um universo
paralelo, para um futuro que não terá. Houve paciência na condução do
processo, cuidado na elaboração dos relatórios e na tipificação precisa
dos crimes de afronta grave às finanças públicas.
Enquanto o processo de afastamento da presidente corria no Senado
Federal, em parte sob a direção do presidente do nosso Judiciário, as
demais instituições da República exerceram plenamente suas funções em
busca de um caminho para retirar o País do desastre econômico no qual
foi jogado pela ânsia de poder e absoluta irresponsabilidade da ora
ex-presidente.
As instituições democráticas vêm garantindo plenamente o exercício dos
direitos individuais e políticos. Houve a mais absoluta ordem
institucional durante o processo de destituição de uma presidente dotada
de apoio parlamentar e de base social. Desenrola-se livre propaganda
eleitoral no rádio e na televisão em meio ao final do julgamento da
presidente. Podemos, portanto, confiar na solidez de nossas instituições
políticas, agora revestidas de maturidade.
Temos razão, portanto, de nos orgulharmos do nosso país. Sabemos
enfrentar os obstáculos com persistência para alcançar objetivos como
retribuição ao mérito, sem perder a leveza do bom humor e a
espontaneidade, que não se confundem com a esperteza safada. Bom humor e
eticidade combinam-se e devem ser vivenciados juntos.
Agora, passado o impeachment, devemos aperfeiçoar nossas instituições,
sem medo da incitação à convulsão pregada por Dilma Rousseff e alguns
sequazes que dizem amar o Brasil, mas antes amam a si mesmos e ao poder.
Cumpre demonstrar firmeza diante da sandice de Dilma, visivelmente
descontrolada, que de modo irresponsável prega a revolta para retornar
ao Alvorada. Pretender pôr em risco a integridade física dos brasileiros
em defesa de sua sede de poder apenas confirma o acerto do afastamento
da ex-presidente.
Maturidade será demonstrada também com a tomada corajosa de medidas no
campo econômico sem o temor de descontentar A ou B, já desfeita a
exigência de uma votação qualificada de dois terços no Senado Federal.
Maturidade caberá ao enfrentar ao menos duas questões da reforma
política importantes para vigorar na eleição de 2018: a cláusula de
barreira e o fim das coligações partidárias para deputado.
Não vamos estragar a vitória por conta da baderna de alguns mascarados
instigados pela inconformada gerentona Dilma. Vamos viver com alegria e
seriedade o novo tempo.
EXTRAIDADEROTA2014BLOGSPOT





0 comments:
Postar um comentário