por José Arthur Giannotti
O roteiro estava escrito. PT e PSDB haveriam de terçar armas mais uma
vez, pautando as eleições de 2014 e reforçando o bipartidarismo nascente
entre nós. Como o PSDB foi incapaz de exercer uma oposição articulada
nos últimos anos, este esquema de polarização vacilava, o que conferiu
enormes vantagens ao PT.
No entanto, sempre que a oposição enfraquece, ela renasce no próprio
seio do governo; e assim se fez a dissidência Eduardo Campos/Marina
Silva.
A tragédia em Santos projetou Marina para o primeiro plano. Ao salvar-se
do desastre, assume a figura da salvadora da pátria, que desde Jânio
Quadros assombra a política brasileira. Haveria de seguir o mesmo
roteiro? Vitória e crise?
O papel de salvadora, porém, não resistiu aos duros ataques do PT e às
estocadas do PSDB. Mas a que se deve a recuperação de Aécio? Como
entender que tenha uma vitória extraordinária em São Paulo, mas perdido
em Minas Gerais?
Creio que a virada de Aécio sobre Marina aponta para um fenômeno novo.
As ditas "classes médias" têm demandado maior racionalidade nas
discussões e decisões políticas, e não mais se deixam enganar pelo
espetáculo da salvação.
Aécio passa a representar a esperança de retirar a economia da
estagflação em que nos meteu a política econômica de Dilma, de reforçar a
associação entre capital público e capital privado, sem cair nos
desmandos do neoliberalismo.
No confronto com Marina, ele vê redesenhada sua imagem política, que
escapa do roteiro escrito pelo marqueteiro e das linhas gerais de uma
imagem cristalizada pelos chefes de campanha, traçada ainda no velho
estilo burocrático. E, sobretudo, recupera as bandeiras
social-democratas do Plano Real que muitos líderes do PSDB tinham
engavetado.
Aécio ainda se perde, é certo, quando, por exemplo, entra no jogo de
Dilma e passa a discutir o velho tema das privações feitas durante a
administração de FHC. Não que elas deixaram de ser importantes, mas
vistas de hoje, quando se reforça entre nós um capitalismo de
conhecimento, pouco importa o estatuto jurídico de uma grande empresa,
quando ela é posta em face de suas obrigações sociais.
Um Estado moderno –e o nosso ainda não o é plenamente– tem condições de
controlar sem sufoco qualquer empresa pública ou privada, impedindo-as
tanto de forçar a exploração do trabalho quanto de se tornar fontes de
corrupção. O caráter público da Petrobras não a salvou do maior achaque
de sua história.
Em contrapartida, na medida em que a imagem de Aécio se torna mais
moderna, mais prenhe de futuro, ela absorve facilmente as acusações de
corrupção contra ele mesmo e seu partido, assim como reforça por
contraste os pecados dos adversários. Ela passa a espelhar o anseio por
mudança contra o lulopetismo, carimbado com a marca do passado. Não é
assim que se explica a onda anti-PT que hoje varre o Sudeste?
Para reforçar nossa democracia creio ser preciso fincar os pés no real.
Assumir a política como ela é, quando todos nós, aliados e adversários,
possamos nos projetar uns nos outros, cada um reconhecendo no outro o
espelho que tende a revelar nossas particularidades. Então, separados e
juntos, tratar de ampliar os controles de nossos órgãos públicos,
multiplicá-los, reforçando uma burocracia estatal competente e longe do
aparelhamento político.
Cabe, pois, de um lado, retomar o sentido público das instituições do
Estado, acostumá-las a prestar contas de seus afazeres e negócios. Por
outro lado, e não menos importante, é necessário melhorar a qualidade de
nossas instituições de ensino, assim como reforçar seu caráter
democrático e plural, lutando para que sejam orientadas a criar homens e
mulheres livres, em vez de "cidadãos" de uma "pátria" sem fissuras, ou
das igrejas de consumo.
Não será possível até mesmo esperar que cada profissional se forme
visando a melhoria de seu próprio desempenho nos quadros de uma forma de
vida mais autêntica? Espero que a vitória de Aécio Neves nos dê um
choque de realidade.
FONTE ROTA2014





0 comments:
Postar um comentário