Fabiola Zerpa e Andrew Rosati - BLOOMBERG - O Estado de S.Paulo
Em Caracas, ricos e pobres estão subitamente menos divididos. Durante
boa parte do experimento socialista de duas décadas na Venezuela, a
casta mais rica e branca da cidade tem sido o caldeirão do sentimento
antigoverno. Mas manifestações ruidosas estão surgindo em bairros do
oeste, mais pobres e mais tranquilos, até então baluartes do conturbado
presidente Nicolás Maduro à medida que a criminalidade se multiplicava e
os remédios e alimentos se tornavam escassos e caros.
Moradores em bairros como La Candelaria, a quarteirões de distância do
palácio presidencial de Miraflores, ergueram barricadas e gritaram
slogans contra o governo Maduro, batendo panelas de dentro de suas
casas. A última vez que os venezuelanos montaram amplos protestos
antigoverno pedindo a saída de Maduro foi em 2014.
Desta vez, a oposição ganhou um apoio internacional significativo. E
dentro do país defecções importantes do partido governante e tumultos
mostram que Maduro pode estar perdendo elementos da base que sustentou a
ideologia socialista face à pobreza.
O lado leste de Caracas, relativamente próspero, onde manifestantes se
reúnem quase diariamente, abriga metade de uma dezena de shopping
centers, um pequeno distrito financeiro e enclaves de alta classe média.
O lado oeste é mais antigo, mais aguerrido, mais pobre e mais perigoso.
Ele abrange o centro histórico onde ficam o palácio presidencial e os
ministérios públicos do governo e onde ficam os bairros operários e o
grosso das habitações governamentais. É também o local de muitas favelas
da cidade.
Em algumas áreas, membros de coletivos governistas circulam para
monitorar os movimentos dos líderes oposicionistas. Em outras, assumiram
o controle dos edifícios, intimidando e ameaçando os moradores quando
eles não seguem as políticas governistas. Mas enquanto a desconfiança
persiste entre os moradores do lado oeste a respeito dos motivos da
oposição e de seu futuro sob um novo governo, a raiva frequentemente se
sobrepõe à dúvida e ao medo.
Jean Carlos Gomes, de 35 anos, um vendedor de manga no bairro da classe
trabalhadora de La Vega, disse que sua casa está sem gás há alguns meses
e sua família passou a usar madeira para cozinhar. “Aqui não temos
faixas nem marchas”, ele disse. “O povo protesta quando não tem opções. É
loucura.”
Para Maduro, é uma tendência preocupante. Mesmo quando a popularidade
generalizada do seu antecessor e mentor Hugo Chávez afundou no último
ano de sua vida, os pobres do país permaneceram intensamente leal a ele.
Maduro está se desgastando com essa base enquanto a infraestrutura
fracassa e a economia baseada na riqueza do petróleo mergulha num caos.
Serviços estão abalados em Caracas, particularmente nas favelas e nos
arredores da capital. Os dutos de água ficam secos durante dias, o lixo
apodrece ao ar livre e a iluminação apaga em razão da rede elétrica
envelhecida. O ponto de virada foi a falência do programa de alimentação
da vizinhança. As entregas são esporádicas e registros de corrupção são
enormes.
“Somos pegos de surpresa quando acontece”, disse Misleidy Gonzalez, de
21 anos, que tem dois filhos e trabalha como faxineira para sobreviver.
Anos atrás, o bairro alardeava os armazéns de comida do governo
abastecidos com generosos subsídios. “Antes você tinha de esperar horas,
mas conseguia achar alguma coisa”, disse Misleidy. “No último ano, até
esperei numa fila de grávidas. Agora não tem nada, só as sacolas.”/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
extraídaderota2014blogspot





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