O Estado de São Paulo Denis Lerrer Rosenfield:
A aprovação da reforma da Previdência é uma linha divisória não apenas
para o governo Temer, mas para o futuro do País. Se deputados e
senadores sucumbirem aos apelos e interesses demagógicos, ideológicos e
irresponsáveis, o Brasil soçobrará.
Alguns, evidentemente, apostam no fracasso do atual governo,
despreocupando-se dos destinos do País. Tudo fazem para deixar o
presidente refém dos seus interesses mais imediatos, como se ele
representasse somente um governo provisório, fadado a preencher um
interregno de curto prazo.
O problema é que o País não pode ficar refém de jogo tão baixo,
sobretudo considerando que a situação econômica e social é muito ruim. O
legado petista é aterrador: desemprego em massa, corrupção, captura do
Estado, alta inflação e PIB em queda. O Brasil não pode ser vítima de
remendos.
O governo Temer apresenta-se como um governo definitivo, e não
transitório. Deve estar à altura do momento, enfrentando questões cuja
solução não pode mais tardar. O tempo corre contra nós. Se as reformas
não forem feitas, os problemas serão simplesmente postergados e virão
com muito mais força no futuro. Podemos estar hipotecando o bem-estar
das gerações vindouras. Ou o País pensa grande ou sucumbe aos interesses
mais imediatos.
O ex-presidente Itamar Franco também assumiu o governo após o
impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Poderia ter
sido um mero governo de transição. Acontece que a Nação não aguentava
mais e ele teve a grandeza de lançar o Plano Real, cujos efeitos até
hoje se fazem sentir. Mesmo o primeiro governo Lula foi por ele
agraciado, o que explica o seu sucesso naquele então.
O mesmo desafio se apresenta para o presidente Michel Temer. Deve ele
enfrentar os problemas do presente pensando, e agindo, no longo prazo.
Se for transitório, será pequeno e mais pequeno ficará ainda o País.
Não foi pouco o realizado em reduzido tempo.
A inflação, que estava fora de controle, está hoje dentro da meta e
aponta para patamar ainda mais baixo. Ganha toda a população, sobretudo a
mais pobre, que não vê mais seu salário ser corroído. Sob a liderança
de Ilan Goldfajn foi restabelecido o controle social da moeda. Tem plena
independência na condução de seu trabalho, algo que desaparecera no
governo anterior.
A Petrobrás, sob a conduta profissional de Pedro Parente, viu sua
credibilidade ser restituída, com avanços inegáveis em pouco tempo. Uma
gestão profissional foi introduzida, relegando ao passado a corrupção e
todo um esquema de propinas que lá se tinha estabelecido.
O Programa de Parcerias de Investimentos, sob a administração competente
do ministro Moreira Franco, começa a produzir os primeiros resultados,
com leilões muito bem-sucedidos. O investimento privado, nacional e
estrangeiro, na área de infraestrutura é vital para o País. Sem ele o
Brasil não terá condições de seguir adiante. Ficaram relegadas ao
passado a incompetência e a ojeriza ao lucro e às empresas privadas não
cooptadas pelo esquema petista.
Sob condução pessoal do presidente Temer, foi possível aprovar a PEC do
Teto do gasto público, princípio moderno da administração pública. Sem
um orçamento responsável e fiscalmente confiável, nenhum país pode
progredir. As forças do atraso, travestidas de progressistas, tudo
fizeram para sabotá-lo.
O ministro Ronaldo Nogueira apresentou, com coragem e habilidade, um
projeto de modernização da legislação trabalhista, voltado para soltar
as amarras de um arcabouço legal que data do início do século 20, com o
positivismo, e posteriormente consolidado na legislação getulista.
O que valia para aquele mundo não mais vale para o nosso. Direitos foram
preservados e os trabalhadores foram elevados à dignidade de
interlocutores, que podem negociar livremente, participando
autonomamente de suas convenções coletivas. Estas passam a ter força de
lei.
A nova lei da terceirização foi sancionada pelo presidente da República.
Trata-se de uma tendência inelutável do mundo moderno, cuja economia
funciona em escala internacional. Não faz o menor sentido manter a
distinção entre atividades-meio e atividades-fim. É uma jabuticaba
tipicamente brasileira, não vigora em nenhum outro país.
O que é fim numa perspectiva é meio em outra, de tal maneira que essas
posições são sucessivamente trocadas. Não há meios e fins fixos numa
economia que ganha a velocidade digital e a integração global.
Considere-se um par de tênis. O seu projeto é feito num país e o seu
desenho, em outro; os seus materiais são produzidos também em locais
distintos; a sua montagem é feita em outro país e o seu marketing, em
outro; para não falar de sua comercialização numa infinidade de Estados.
Como falar aqui de meio e fim, como se fosse viável uma fábrica, num
único país, realizar todas essas operações? Se o fizer, muito
provavelmente estará fadada à falência, com o desemprego daí
proveniente.
Agora chegamos ao desafio maior: a reforma da Previdência. Algumas
coisas são certamente inegociáveis, como a idade mínima e a igualdade
entre homens e mulheres. Coisas menos decisivas, como a aposentadoria
dos trabalhadores rurais, podem ser objeto de negociação. O fundamental
aqui é uma contribuição, mesmo que pequena, que torne viável um cadastro
rural seguro. Evitam-se, assim, fraudes hoje muito comuns, com
prejuízos para todos os contribuintes.
É bem verdade que o governo não se comunica a contento, embora
progressos venham sendo feitos nas últimas semanas. A sociedade não
consegue bem entender a importância do que está em jogo, tornando-se
refém de discursos defasados, que têm como único esteio a demagogia e a
irresponsabilidade para com o País.
Se a reforma da Previdência não vier a ser aprovada, o Brasil pode
afundar como o Titanic. Vamos continuar dançando como se estivéssemos
num salão de festas?
Vamos perseverar na verborragia demagógica e ideológica?
EXTRAÍDADEROTA2014BLOGSPOT





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