Luiz Felipe Pondé Folha de São Paulo
A esquerda tem duas fases. A primeira, cujo último representante, Fidel
Castro, acabou de morrer, podemos chamar de clássica ou romântica, ainda
filha direta de Marx (aquele que pregava fuzilamentos sumários para
frouxos e primitivos) e da moçada bolchevique, que também era chegada a
métodos administrativos de fuzilamento.
Fidel comia todas, além de vesti-las de soldadas. Um sujeito que merecia
respeito. Fumava charutos, algo que fala bem do caráter de um homem,
apesar de ditador e cruel. Pelo menos era sincero.
A segunda, que podemos dividir em alguns subtipos, é mais acadêmica e
bem-comportada. Prefere a cultura do "fitness" aos charutos. Quanto a
comer todas, nem pensar! Considera isso coisa de "hétero machista".
Combina com restaurante vegano e bike. Nada de gente sem doutorado, ou
pelo menos mestrado. Ou que não tenha feito um curso de teatro ou dança.
Se for "trans" em alguma coisa, melhor ainda. Suporta o povo apenas
como "ideia" e sem nenhum cheiro de ônibus. Cultiva as rede sociais como
o "lugar do indivíduo kantiano" se manifestar e sonha com um curso de
cinema em Havana.
Esta segunda fase é mais múltipla, como tudo numa sociedade de mercado
avançada. Ser de esquerda hoje é mais um estilo entre outros. Logo terão
seu próprio menu gourmet.
A rigor, a esquerda não passa de um fetiche sofisticadíssimo de uma
burguesia entediada com o próprio mundo vazio de sentido que criou, mas
que é insuportavelmente confortável. Como todo fetiche, mais atrapalha
do que realiza o gozo. O grande trunfo da esquerda, historicamente, é
ser abstrata nas ideias e imprecisa nos fatos. Logo, não serve para
nada, mas serve para masturbação vaidosa acerca da própria bondade.
Essa fase contemporânea tem alguns totens. Foucault, um sujeito muito
preocupado com a própria roupa, mais dado a estilos do que a atitudes,
adora bandidos e combina com seminários universitários e "coffee
breaks".
Os frankfurtianos Benjamim, Adorno e Horkheimer, os melancólicos da
esquerda, são de mais difícil consumo porque "negativos" e não creem na
revolução vegana e de gênero.
Kant (coitado!) virou guru dos crentes e fiéis no indivíduo racional
emancipado que um dia votará no PSOL como "necessidade da razão prática"
(estou falando dialeto kantiano em homenagem a essa facção da esquerda
contemporânea) e que, no futuro, usarão as redes sociais de forma
"consciente". Essa combinação de Kant com Facebook me parece, de todas
as formas de esquerda, a mais risível.
Todo mundo sabe que Kant deve ter morrido virgem para de fato crer que
pessoas reais podem viver de modo tal que cada ato praticado na vida
seja erguido em norma universal de comportamento (seu "imperativo
categórico"). A ética kantiana é coisa séria, mas na esquerda vira
#revolucionesecomkantnoface. O sujeito kantiano está morto no free shop
há muito tempo.
Os deleuzianos passaram um pouco do ponto e da moda. Já que seu ícone,
Maio de 68, já se sabe, era claramente uma revolução de mimados. Mas
ainda dará umas teses de doutorado aqui e ali.
Tem também a moçada Badiou-Zizek, mais recente no mercado de opções, com
terminologia incompreensível (lacanês), que fala que, se você for de
esquerda, você gozará fazendo a revolução (a "vida verdadeira") e, por
isso mesmo, não precisará de ninguém de carne e osso nas suas mãos para
amar. Assimilaram um dos maiores erros do cristianismo: o amor universal
à humanidade como possibilidade de afeto real.
E tem a esquerda de gênero, aquela que pensa que se você tem questões
com sua identidade sexual, por consequência não existe mais mulher e
homem na espécie humana. E a esquerda das bikes e dos coletivos? Pura
purpurina.
Apesar de todo o mimimi com Cuba e a morte de Fidel, essa moçadinha do
PSOL faria xixi nas calças se tivesse que encarar gente como Fidel e
Che. Para essa moçadinha, os dois só servem como personagens ou fetiches
em camisetas e canecas. Para Fidel seria um verdadeiro pesadelo ter um
desses combatentes veganos em seu Exército. #revolucionesecomkantnoface é
o futuro da esquerda.
extraídaderota2014blogspot





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