por Dawisson Belém Lopes O Estado de São Paulo
Sob a surrada bandeira da luta contra a corrupção, o brasileiro foi à
rua neste domingo, 4. Em números nem tão expressivos como os de outrora,
é bem verdade. Ainda assim, fez-se barulho. Alega-se que Calheiros,
Maia e Temer seriam os destinatários nominais do protesto. É como se se
quisesse dizer aos homens que lideram o Legislativo e o Executivo:
“comportem-se, pois estamos de olho; a porta de saída é a serventia da
casa.”
Desconfio dessa versão. Os gestos e equívocos recentes dos políticos
brasileiros ajudam, sim, a engrossar o caldo, mas não bastariam para
inflamar a turba e deslanchar o ativismo presenciado em 4 de dezembro.
Não é de hoje que se estabeleceu no País a narrativa que associa a
salvação da pátria à “caça aos corruptos”. O raciocínio é sobejamente
conhecido: na terra em que, em se plantando, tudo dá, como pode não
haver prosperidade? A resposta à pergunta, quase invariavelmente, ignora
os condicionamentos institucionais e concentra-se nas variáveis
“culturais”.
Um discurso fortemente moralista sustentou Getulio Vargas na
Presidência, contra as lideranças da República Velha, a economia do
latifúndio e o federalismo estadualista. Jânio Quadros, candidato cujo
marketing eleitoral baseava-se na vassourinha que prometia “limpar a
sujeira do País”, teve vitória consagradora em 1961. A ditadura dos
militares defendeu a família, a tradição e os bons costumes, fazendo
espantalho da ameaça comunista, durante a Guerra Fria. Fernando Collor
formulou discurso de perseguição aos “marajás” do serviço público.
Ganhou a eleição direta, em 1989, com esse slogan.
Os males da nação não são a saúva e a saúde, como supunha Monteiro
Lobato, e sim os crimes contra a administração pública. Eis o
entendimento da classe média tradicional, vocalizado ad nauseam por
órgãos da imprensa e partidos políticos mais à direita do espectro.
Entretanto, se o impedimento de Dilma Rousseff, movido por pretexto
moralizador, foi o que canalizou a indignação dos manifestantes em março
e abril do corrente, agora a agenda parece menos difusa e mais
programática.
Neste novo contexto, corporações profissionais do Judiciário, do
Ministério Público e da Polícia Federal encontram terreno fértil para
levar adiante o seu “mandato tácito” e avançar sobre outros poderes e
interpretações convencionais dos textos jurídicos. Sérgio Moro, juiz
federal e professor universitário, é a liderança do movimento. Por
encarnar as capacidades “correcionais” reclamadas por segmentos da
opinião pública, já é percebido como um ator político. Ingênua ou não, a
crença estruturante do morismo é de que só Sérgio, e ninguém mais,
poderá salvar o Brasil das garras dos Renans, Rodrigos e Michéis do
Planalto Central.
Sem incorrer em superinterpretação, dá para afirmar que o 4 de dezembro
significou o primeiro ato público nacional em favor de Moro e sua cria
dileta, a Operação Lava Jato. Eu não descartaria, portanto, a hipótese
de que, de agora em diante, o juiz passasse a ser mais seriamente
considerado como opção para 2018. Os moristas estão chegando.
* É professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais
extraídaderota2014blogspot





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