por Mary Zaidan Com Blog do Noblat - O Globo
Política não é cartesiana. Nela, dois mais dois por vezes não somam
quatro, e o antagonismo simplista é quase sempre um equívoco. Dizer isso
em um planeta que tem preferido a grita (o nós x eles) à análise de
fatos e à maturação de ideias beira o extemporâneo. Mas trata-se de
prudência obrigatória, quanto mais diante de temas tão palpitantes
quanto medidas para coibir a corrupção e o abuso de poder.
Em um país onde a carteirada é quase uma instituição e o “sabe com quem
está falando” ainda é prática corrente, discutir abuso de autoridade
seria benéfico. A rigor, muito mais útil para o cidadão comum do que
para os poderosos. Especialmente em um ambiente em que os fortes são
muitíssimo fortes – protegidos por foro privilegiado, que engloba
políticos e altos servidores do Executivo, Legislativo e Judiciário, e
tribunais especiais, caso de militares e policiais –, e os fracos,
fraquíssimos, até por não ter recursos para pagar advogados.
Mas longe de querer “coibir e punir condutas que escapem ao Estado
democrático de direito, ao pluralismo e à dignidade da pessoa”, como o
presidente do Senado, Renan Calheiros, expressa na justificativa de seu
projeto de lei contra abuso de autoridade, os tais poderosos só passaram
a se preocupar com o dito abuso depois de se tornarem alvo de escutas,
prisões temporárias e preventivas, condenações. Em suma, até o Mensalão
cutucá-los e a operação Lava-Jato seguir o rastilho de pólvora espalhado
por delatores, tudo prestes a explodir.
Na semana passada Renan colheu duas derrotas. Perdeu por 44 a 14 a
votação que pretendia conferir urgência ao projeto contra a corrupção
aprovado pela Câmara dos Deputados, no qual se anexaram punições a
magistrados e procuradores. E virou réu no Supremo, por crime de
peculato, por 8 votos a 3. Na próxima terça-feira pretende votar o seu
projeto sobre abuso – um texto com 45 artigos, entre eles alguns ainda
mais draconianos do que o aprovado na Câmara.
Rechaçado pelo Ministério Público Federal (MPF), autor das 10 medidas
contra a corrupção encaminhadas ao Parlamento como projeto popular com o
aval de mais de dois milhões de signatários, o projeto que saiu da
Câmara é um Frankenstein. Aprovado na fatídica madrugada em que os
brasileiros choravam pelos chapecoenses mortos em um acidente aéreo
bárbaro, o texto cravou de morte o coração da proposta e acrescentou
punições a juízes e procuradores, algo completamente fora do corpo e do
script.
O país reagiu diante do monstro construído: bradou nas redes sociais,
perturbou o WhatsApp dos deputados, convocou um panelaço para o horário
nobre e gente para as ruas neste domingo.
Renan não se fez de rogado. Obcecado para punir quem pode por direito
puni-lo, tentou atropelar o processo legislativo. Perdeu. Mas imagina
que pode dar o troco. Não nas medidas contra a corrupção, que tanto ele
quanto a Câmara preferem ver adiadas para as calendas agora que já não
podem mais incluir nelas a anistia ao caixa 2, mas na votação de seu
projeto. E com especial apreço pelo artigo 30, que pune com pena de
reclusão de um a cinco anos quem der “início ou proceder à persecução
penal, civil ou administrativa, sem justa causa fundamentada”, sem que
se diga o que vem a ser a tal “causa fundamentada”.
A urgência de muitos dos políticos – um terço dos 81 senadores e 148 dos
513 deputados são alvo de algum tipo de inquérito ou ação penal – faz
com que o país não consiga ter uma lei contra o abuso de autoridade que
realmente sirva à cidadania. E abusos não faltam. Não raro sem punição.
Quase 50 juízes condenados por corrupção tiveram penas pífias – perda do
cargo e afastamento com direito a aposentadoria integral – e poucos
promotores acabaram atrás das grades depois de crimes severos, incluindo
homicídio. Políticos com mandato na cadeia também se contam nos dedos.
Juízes e procuradores não são infalíveis – ninguém é. Erram e até
abusam. Mas, como disse o juiz Sérgio Moro no plenário do Senado, “não
podem ser intimidados por interpretações ou juízo de valor a respeito
das provas proferidas nos processos sob sua responsabilidade”. Ao mesmo
tempo, não há lógica em se imaginar provas ilícitas válidas em um
processo ou o horror de pessoas delatando outras para auferir vantagens
financeiras – o “reportante do bem” — como pretendem os autores das 10
medidas contra a corrupção.
Por interesses próprios e inconfessáveis, por ignorância, oportunismo ou
má-fé, esse debate tão necessário ao país se faz em favor de quem quer
se livrar da Justiça. E se deixa aprisionar na paixão maniqueísta entre
quem é contra e a favor das 10 medidas do MPF, contra ou a favor de se
coibir abusos. Como na síndrome, a bipolaridade refuga o bom senso.
extraídaderota2014blogspot





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