editorial do Estadão
Começaram ontem os primeiros Jogos Olímpicos realizados em solo
brasileiro. É uma grande honra para o País receber esse evento
extraordinário, que mobiliza bilhões de espectadores e lança sobre a
sede as atenções do mundo inteiro. Para os atletas e os turistas que
participarem dessa que é a maior festa do esporte, certamente a
experiência será inesquecível e, provavelmente, sem grandes incidentes,
porque a organização das competições, a cargo de experientes entidades
privadas, costuma ser impecável. Contudo, para os brasileiros, que daqui
não sairão ao final da Olimpíada e terão de conviver com os problemas
de sempre, o chamado “legado” dos Jogos é obviamente muito mais
importante do que as pouco mais de duas semanas de disputa e
confraternização. E a realidade é que, como de hábito, se prometeu muito
mais do que o País será capaz de entregar.
Já no discurso em que defendeu a candidatura do Rio de Janeiro para
sediar a Olimpíada, em outubro de 2009, o então presidente Luiz Inácio
Lula da Silva mencionou esse “legado” e bradou: “Chegou a nossa hora.
Chegou!”. Como sempre, o petista não perdeu a chance de explorar a
ocasião para fazer propaganda de seu governo e acabou por vincular uma
coisa à outra: se o Rio fosse escolhido para receber os Jogos, tanto a
realização da competição como as obras de infraestrutura e de mobilidade
seriam, antes de tudo, conquistas pessoais de Lula.
Desde o nascedouro desse projeto ambicioso, portanto, os petistas e seus
associados tentaram criar um vínculo da Olimpíada do Rio de Janeiro com
Lula, como se a escolha da cidade brasileira fosse o reconhecimento
mundial da revolução social e econômica que o ex-sindicalista pensava
estar liderando no País. E, claro, seria a chance desse “novo” Brasil de
provar que, sob a liderança do petista, poderia desafiar os incrédulos:
“Os que pensam que o Brasil não tem condições de receber os Jogos vão
se surpreender”, discursou Lula após a escolha do Rio. “Finalmente o
mundo reconheceu a hora e a vez do Brasil.”
Como hoje os brasileiros começam a perceber, da maneira mais traumática
possível, a revolução prometida por Lula estava assentada em grossa
corrupção e em incompetência cavalar. As promessas revelaram-se
embustes. A arrogância deu lugar à vergonha. Assim, a alegria
proporcionada pela escolha do Rio como sede olímpica converteu-se
rapidamente em receio de ver o País ser motivo de vergonha planetária.
Razões não faltaram, a começar pela poluição da Baía de Guanabara e pela
epidemia de zika, para citar apenas dois dos maiores focos da imprensa
estrangeira na cobertura da preparação do Rio para a Olimpíada. As obras
destinadas às competições ficaram prontas a tempo, mas isso só
aconteceu porque o Comitê Olímpico Internacional, quando percebeu que
era real o risco de atraso, mandou para o Rio um interventor,
responsável por coordenar os projetos. Ademais, os grandes investimentos
prometidos por Lula e companhia para transformar o Brasil em potência
olímpica não passaram de lorota.
Tudo isso, somado à imensa crise econômica, política e moral que o País
atravessa, acabou por fazer da Olimpíada não um sonho, mas um estorvo.
Não foram poucos os correspondentes estrangeiros que se surpreenderam
com o clima de pessimismo e desalento dos brasileiros às vésperas dos
Jogos, algo nunca visto em outras edições da competição.
Mas eis que, enfim, chegou a hora da Olimpíada e muito provavelmente o
clima de prostração dos brasileiros dará lugar, ao menos
momentaneamente, a um genuíno interesse pelo evento em si e pela festa
proporcionada pela vinda dos maiores atletas do mundo ao Brasil. Passado
esse momento, porém, teremos de voltar de imediato ao doloroso exame de
nossas mazelas, e muito provavelmente concluiremos que a Olimpíada pode
ter feito algum bem para o Rio de Janeiro, mas pouco significado teve
para o Brasil. A menos que se considere positiva a comprovação de que
algumas autoridades cultivam como qualidades a demagogia e o improviso.
extraídaderota2014blogspot





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