Mary Zaidan: Com Blog do Noblat - O Globo
Em meados de junho, Dilma Rousseff fez chegar à imprensa a decisão de
divulgar uma carta aos brasileiros, a exemplo do que fizera o ex Lula,
com sucesso, em 2002. Junho acabou sem a missiva. Veio julho, nada.
Agosto chegou e a tal carta, que pretendia ser o instrumento decisivo de
defesa da presidente afastada, se tornou símbolo da discórdia entre os
poucos aliados que ela ainda tem. Entre ela e o PT, entre ela e a
realidade.
A ideia inicial era que a carta fosse elaborada a partir das aspirações
de movimentos sociais e setores da esquerda, conforme proclamavam
auxiliares da presidente afastada. Imaginavam – ou fingiam imaginar –
que funcionaria como um ponto de mobilização, aglutinando forças em
torno de Dilma.
Na época, a mídia aliada, tendo à frente o site Brasil247, anunciava em
letras garrafais que o documento traria “propostas concretas para as
áreas de Educação, Saúde e a continuação plena de programas como o Minha
Casa, Minha Vida”. Além de mudanças na área econômica, que levariam em
conta os “desejos da sociedade, como novas regras na Previdência
devidamente discutidas com os trabalhadores, e a reforma política”.
Se esse conteúdo entrou no primeiro esboço, nada ou pouco dele constará
da redação final, que abriga mais dúvidas do que certezas.
A versão mais recente, que Dilma pretende ter como definitiva, é o
exemplo acabado do quanto a sua visão se turvou. Não consegue mais
enxergar um único palmo à sua frente, se é que algum dia conseguiu.
O ponto central – a convocação de plebiscito para novas eleições – foi
publicamente rechaçado pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, que,
melhor do que qualquer oposicionista, demostrou o quanto a proposta é
inviável e inexequível. Um acesso de sinceridade, no qual só faltou
denunciar o oportunismo barato de falar de eleições-já para agradar a
galera que não quer nem Dilma nem Temer.
A insistência na ladainha do “golpe parlamentar” também desune. Há os
que defendem o argumento como eixo da carta, outros o repudiam. Temem
que sua utilização no plenário possa ferir o brio dos senadores.
Dilma está só. Nas ruas, nem os poucos manifestantes arrebanhados por
movimentos de esquerda – foram cerca de 300 na praia de Copacabana na
sexta-feira, dia da abertura dos Jogos Olímpicos – conseguem defendê-la.
Não se vê um “fica Dilma”. Ninguém reivindica a permanência dela no
Planalto. Só o “fora Temer” os une.
Exausta, Dilma repisa na tese da ilegitimidade do presidente em
exercício, que não teria recebido os 54 milhões de votos a ela
conferidos. Uma tolice.
A mesma conveniência que faz Dilma repudiar Temer determinou que ela o
incensasse quando precisava do apoio dele. Em 2014, na convenção que
reeditou a aliança PT-PMDB, ela se derreteu em loas a Temer. Destacou “o
papel inestimável” dele na remoção de obstáculos e foi ainda mais
longe: “Eu acredito que ele sabe aproximar as pessoas, ele sabe unir e
desarmar os espíritos". Sobre o PMDB que hoje ela escorraça, disse que o
partido tinha ajudado a melhorar os programas de seu governo,
reservando à sigla os vivas com os quais costumava – instruída pelo
marqueteiro João Santana – encerrar os seus discursos: "Viva o PMDB e
viva a aliança".
Dois meses antes, fora a vez de Lula enaltecer o líder peemedebista. Em
uma mensagem lida por Rui Falcão na convenção que reconduziu Temer à
presidência nacional do PMDB, Lula elogiou a parceria Dilma-Temer,
aliança que o ex costurou com empenho, mesmo contra a vontade de parcela
de seu partido.
Agora, a carta de Dilma só deverá ser formalizada no final de agosto ou
no início de setembro. Chegou a ser anunciada para a próxima
quarta-feira, dia 10, mas o mais provável é que fique cozendo no caldo
ácido do dissenso até à véspera da votação final do impeachment.
Embora saiba que nada alterará a contagem das favas quanto ao seu
destino, Dilma afirma que o documento “dá um caminho de uma transição,
de uma saída para o país”, e que ela vai “vencer no Senado e na
história”. Um tento que Dilma até poderia alcançar, se, em um lapso de
grandeza e espírito público, abreviasse a agonia do país com o anúncio
de sua renúncia.
Seria uma cartada e tanto.
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