O Estado de S. Paulo -
Editorial
Tudo vai bem, garante a presidente Dilma Rousseff, mas, por segurança, o governo decidiu chamar os empresários para conhecer suas expectativas, ouvir suas queixas e exortá- los a um esforço maior para aumentar a produção. “Tomar o pulso” foi a expressão usada por uma fonte de Brasília.
Tudo vai bem, garante a presidente Dilma Rousseff, mas, por segurança, o governo decidiu chamar os empresários para conhecer suas expectativas, ouvir suas queixas e exortá- los a um esforço maior para aumentar a produção. “Tomar o pulso” foi a expressão usada por uma fonte de Brasília.
Em
termos mais realistas: dois anos e dois meses depois da posse e com
dois anos de estagnação em seu currículo, a presidente e seus ministros
estão perdidos. Têm feito sua parte, continuam dizendo, e continuam sem
entender por que o empresariado fez muito menos que o esperado. Onde
está o tão falado espírito animal? O governo promete mais estímulos, com
redução de impostos sobre a cesta básica e desoneração do PIS-Cofins
sobre a cadeia produtiva, mas precisa de respostas urgentes. É preciso
garantir um desempenho econômico bem melhor na segunda metade do
mandato, embora ninguém reconheça
oficialmente o fracasso do primeiro biênio. Mais que um dever
presidencial, impulsionar o crescimento a curtíssimo prazo tornou-se
incontornável missão partidária, nos últimos dias, depois de aberta pelo
chefe supremo do partido a campanha da reeleição.
Mais
que um sinal de humildade ou de realismo, o convite aos empresários,
nesta altura, é um claro indício de perplexidade. A presidente, o
ministro da Fazenda e demais componentes da equipe econômica parecem ter
dificuldade para entender o fracasso econômico. Mostram alguma
percepção do fato, mas ao mesmo tempo tentam negá-lo. O ministro Guido
Mantega insiste em apresentar o Brasil como vítima da crise
internacional. A presidente, ao contrário, mostra o País como imune aos
problemas externos e livre, portanto, do risco de pneumonia quando as
grandes potências espirram. Ela e os auxiliares parecem nem mesmo
combinar suas falas.
A
presidente continua falando sobre os investimentos da União como se
fossem uma sequência de sucessos. Usou esse tom mais uma vez, nesta
quarta-feira, durante encontro com governadores e prefeitos. Mas o
governo é um investidor incompetente e raramente chega a desembolsar 60%
do valor previsto no orçamento de cada ano - e a maior parte do
dinheiro corresponde a restos a pagar. A maior parte das estatais, ainda
sob regime de loteamento, também continua atolada na incompetência,
enquanto na Petrobras há um esforço de reforma gerencial e de
recuperação.
A
perplexidade do governo diante dos resultados obtidos até agora
confirma também sua incapacidade de planejar e até de entender os
entraves ao crescimento brasileiro. A presidente adotou desde o ano
passado, com mais de um ano e meio de atraso, o discurso a respeito da
competitividade. A maior parte da política adotada em dois anos, no
entanto, foi destinada a estimular o consumo, como já foi provado tanto
pela análise das políticas quanto pelo ba- : lanço dos resultados.
Parte
do fracasso acumulado nos últimos dois anos é explicável por uma
evidente confusão entre planejamento e intervencionismo autoritário. As
perdas impostas à Eletrobrás e à Petrobras, a desmoralização do Banco
Central (BC) e as dificuldades para envolver o setor privado nos
programas de infraestrutura são consequências dessa confusão. Não por
acaso a presidente Dilma Rousseff tem insistido, em seus
pronunciamentos, em apresentar o governo como cumpridor de contratos.





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