Cantigas de roda
| Autora: Monica Baumgarten de Bolle
O Estado de S. Paulo -
Caranguejos
são crustáceos, animais invertebrados cobertos por um exoesqueleto –
uma estrutura de sustentação externa que é substituída quando crescem.
Para que possa encorpar, o caranguejo se despe de sua antiga carapaça,
ficando, assim, vulnerável aos predadores. Por isso se esconde na lama
dos mangues até que tenha reconstituído sua estrutura exterior.
Caranguejos não nadam. Eles andam de lado. Caranguejo, portanto, não é
peixe.
Mas
o governo ainda acha que o País é peixe. O que falta é apenas a água
para que o Brasil possa nadar livremente. Por isso, inunda-nos com
declarações confusas, às vezes contraditórias, sobre câmbio, crescimento
e inflação. Roda, roda, roda. Também bate o pé. Diz que as medidas
adotadas desde o ano passado destravarão a oferta, quando, na verdade,
impulsionam a demanda e fazem o caranguejo inchar dentro de uma carapaça
dura, da qual o País não consegue se desvencilhar. A carapaça da
ideologia macroeconômica sem uma estratégia clara de desenvolvimento.
O
governo sabe que precisa destravar o investimento para que o País possa
crescer. Porém, atiça o consumidor como crédito barato, derrubando a
taxa de poupança para míseros 14,8% do PIB. Quando percebe que não há
recursos suficientes para financiar o investimento, aciona os bancos
públicos e recorre ao investidor internacional. Faz um road show para
discorrer sobre o comprometimento do governo com as suas metas e sobre
as grandes oportunidades que existem no País. Ao retornar, faz um
discurso emocionado, destacando as virtudes de Hugo Chávez, o falecido
presidente venezuelano, algoz dos investidores internacionais.
A
maré alta dos mercados internacionais acabou. Enquanto durou, deu para
fingir que o País era um peixe ágil, capaz de permanecer na crista de
marolas e tsunamis. Agora, a maré baixou. O investidor internacional
resolveu pescar em outras praias latino-americanas. E nós continuamos
aqui, com uma inflação infatigável, sintoma das ineficiências que
incluem uma política econômica equivocada. Uma política que restringe a
capacidade de expansão da nossa indústria ao andar na contramão do que
fazem outros países, fechando-a, em vez de abri-la para as redes de
comércio internacionais. Uma política que levou o Brasil a essa situação
esquisita, em que a inflação não cede, o crescimento não deslancha, mas
em que o mercado de trabalho nunca esteve tão bem. Isso não é
equilíbrio.
Isso
é outra coisa. Vejamos. A taxa de desemprego baixa induz uma espiral de
salários e preços que eleva a inflação – até recentemente, tal processo
fora contido pelo câmbio valorizado. A pressão sobre os custos das
empresas que resulta disso estrangula o investimento e a expansão da
atividade. O governo, então, desonera as empresas para compensar esse
efeito, mas o faz com um instrumento - a redução da contribuição sobre a
folha de pagamentos - que leva alguns setores a querer contratar mais
gente, substituindo capital por mão de obra. Isso reforça o quadro de
baixo crescimento com inflação elevada por meio do vórtice
salários-preços-salários. O investimento não vem. O governo aciona o
BNDES, acrescentando ofensa à injúria inflacionária (e fiscal) ao forçar
o caranguejo brasileiro a crescer quando ele está encouraçado,
revestido por um exoesqueleto do qual não consegue se libertar. Mais uma
vez, roda, roda, roda.
E
assim vamos, rodando na maré baixa. Ignorando as lições do passado
recente. Aquelas que nos mostraram tão claramente que “caranguejo não é
peixe/ caranguejo peixe é/ caranguejo só é peixe na enchente da maré”
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1 comments:
A presidANTA disse que o PIB não é importante que o importante são as criancinhas.Em seu último discurso,ao exonerar os impostos da cesta básica, disse que o Brasil vai muito bem.Mente vergonhosamente e será candidata a
reeleição.Será reeleita.O povo terá o governo que merece.Os governistas continuarão a viver em um mar de rosas .Pobre Brasil.
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