Rodrigo Constantino
Idéias de um livre pensador sem medo da polêmica ou da patrulha dos "politicamente corretos".
Dilma
teve dificuldade para dormir nesta noite, o jantar ainda brigava com os
sucos gástricos; os pensamentos ruins iam e vinham e nada do sono
chegar. Após muito rolar na cama, e com o auxílio de uma destas
maravilhas capitalistas da indústria farmacêutica, ela finalmente pegou
no sono. E logo começou a sonhar.
O
sonho começou animador. Uma linda moça, loura, elegante, ponderada e
exalando sabedoria, a convidou para um passeio. Mentalmente, a
presidente anotou que nunca havia visto a moça em nenhum congresso do
PT. O passeio seria pelo futuro próximo, algum lugar entre 2030 e 2040.
O
passeio começou fora do Brasil, pelos aliados bolivarianos. A Venezuela
era governada por Conchita Chávez III, neta de Hugo Chávez, que, embora
vivo não governava e apenas enviava tweets
do hospital. O país virou um amontoado de miseráveis que agora
importava petróleo, todos os que produziam ou tinham algum tipo de
estudo agora estavam em Miami, que, com isso, viveu um novo boom
econômico e já está entre as cinco maiores cidades americanas. A
próxima parada, rápida, foi a Bolívia que já não era mais um país e sim
um campo de batalha de quadrilhas de cocaleros,
sendo a mais poderosa aquela comandada pelo pessoal que soltou um
sinalizador em um jogo de futebol há muito tempo atrás. Estabeleceram-se
na Bolívia.
Para encerrar o tour
sul-americano, a linda moça levou Dilma para a Argentina. A presidente
achou que era uma peça de mau gosto que pregavam nela. Buenos Aires, tão
linda, estava caquética e destruída como Havana. Não havia mais
produção rural; a carne era importada da Austrália (caríssima) e o
tradicional doce de leite não existia mais. A população fazia filas e
mais filas atrás dos cupons de racionamento, que davam direito a uma
porção diária de comida. Já não havia mais moeda, corroída por uma
inflação de quatro dígitos. O escambo havia voltado e cada um se virava
como podia. O país era dirigido por uma neta do Maradona com um
descendente de Perón, que tinha como plataforma de governo a recuperação
das Ilhas Falklands, nesta altura já com um PIB superior ao da Argentina.
Dilma começava a ficar zangada, achando que isso era uma pegadinha do Lobão ou do Mercadante. A moça então disse, "chega dos vizinhos, vamos ver o Brasil". Dilma ficou feliz, "agora vamos ver a potência que eu e Lula criamos".
A visita começou por uma cidade do sul, onde tinha acabado de haver um
incêndio em uma boate, ceifando a vida de 300 jovens. Dilma ficou fula.
"Como? Nós baixamos 87 decretos e 234 artigos regulamentando a atividade
de boates em 2013. Como pode?"
A
próxima parada foi numa plataforma do pré-sal, da antiga Petrobrás. A
plataforma (como as outras) já não produzia mais nada há 20 anos. Todas
foram alugadas pela empresa de festas do Thor Batista e eram usadas para
raves em alto mar. Tudo com open bar
e passagem de helicóptero inclusos. Dilma ficou pensando no que poderia
ter dado errado. Afinal, ela caprichou na proteção e no financiamento
da indústria nacional. Agora o Brasil importava petróleo dos Estados
Unidos, que com sua tecnologia de extração do ouro negro do xisto
betuminoso, se tornou o maior produtor mundial.
Ao
passar pelas cidades Dilma levou um susto: o trânsito simplesmente
parou (afinal o que esperar com quatro milhões de carros vendidos por
ano e zero km de estradas construídas) e os carros estavam abandonados
na rua, num grande nó. As pessoas agora andavam a pé e as bicicletas do
Itaú eram disputadas a tapas.
Ao
procurar agências do Banco do Brasil e da Caixa Econômica, Dilma levou
um susto ao não ver mais nenhuma. A moça explicou que após a brutal
expansão de crédito, seguiu-se uma onda de inadimplência que levou o
governo a ter que fazer seguidas capitalizações nos dois bancos. No
final, o governo juntou os dois bancos num só, o Banco do Povo, que
tinha no seu logo a figura do Che Guevara.
Dilma perguntou para
a sua anfitriã o que era aquela fila no centro do Rio de Janeiro. A
moça explicou que era a fila do bolsa-vela. Afinal, o setor de energia
elétrica foi dizimado em 2012 e não houve mais investimentos. Hoje temos
energia somente 4 horas por dia e a vela virou artigo caro e escasso. O
governo petista, sempre atento ao social, criou o programa de
distribuição de velas para os mais desfavorecidos.
Dilma perguntou
sobre os programas de cotas. Ficou sabendo que apenas quatro cotistas
conseguiram se formar verdadeiramente. Os outros se formaram por liminar
ou pelo novo sistema de cotas para aprovação automática. Os erros de
engenharia e de médicos se avolumavam, causando muitas mortes; o CREA
estudava a polêmica medida de somente habilitar engenheiros paraguaios.
Ela anotou de chamar o Mercadante para uma reunião.
Dilma já estava
ficando realmente preocupada quando se lembrou de Brasília. Pediu para
ver a cidade do poder. Poucas surpresas. O presidente era governado pela
chapa Lindbergh Farias do PT tendo como vice o filho do Collor, do
PMDB. No Congresso, os netos de Sarney e Renan se revezavam na
presidência do Senado e se divertiam fazendo fogueiras com os
abaixo-assinados para que saíssem.
A base aliada já
contava com 364 partidos e a palavra oposição foi retirada do Aurélio,
por falta de uso. Naturalmente, para pagar a conta deste estado
gigantesco, a carga tributária já estava em 70% do PIB. Com isso a
economia não conseguia crescer e o PIB per capita já era metade do
anotado em 2013. O governo Lindbergh estudava exportar metade da
população para África, e com isso melhorar o indicador. O prédio do
Banco Central virou um Fundo Imobiliário de um Shopping e agora a
política monetária era decidida diretamente por Lindbergh e por
Collorzinho no poker das
segundas, após o expediente. A inflação não se sabe se oscila nos dois
ou nos três dígitos, tantas são as manobras e tablitas sobre o índice.
Para manter o povo feliz e o projeto político em funcionamento, os
programas de transferência de renda já atingem 300 milhões de pessoas,
embora a população tenha apenas 280 milhões. Um mistério.
Dilma perguntou para a moça (seria uma fada?), afinal o que tinha dado errado? A diáfana e sábia criatura calmamente explicou; "Dilma,
todos esses experimentos sociais fracassaram, um após o outro. Os seres
humanos são diferentes, e tem diferentes capacidades e ambições. Quando
compulsoriamente (veja bem, nada contra a caridade espontânea) os mais
fortes e trabalhadores tem que sustentar os fracos e preguiçosos, a
sociedade implode. Afinal, o açougueiro não sai da cama de manhã imbuído
de doar a melhor carne para o seu cliente. Sua motivação é o lucro. O
lucro não é feio, muito pelo contrário. A
beleza do lucro é ser a expressão monetária do trabalho bem feito, da
inventividade, do sacrifício de uma juventude de estudos, do risco,
enfim, de trocar o prazer momentâneo por algo bem maior lá na frente.
Se você monta uma estrutura social onde os empreendedores são punidos e
os preguiçosos são favorecidos o que você acha que os primeiros fazem?
Vão embora, é claro. E o que é uma sociedade formada por gente
acomodada? O que você acha que acontece em uma economia sufocada por
milhões de normas e decretos, onde é mais simples se cadastrar em alguma
bolsa- qualquer-coisa do que produzir uma caneta? O que você acha de
uma sociedade onde o empresário gasta mais tempo com o seu contador do
que com o seu cliente? Dilma, minha querida. Não se extermina as
galinhas dos ovos de ouro de um país impunemente.".





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