por Rogerio Chequer Folha de São Paulo
"O sítio de Atibaia não é meu; o tríplex do Guarujá não é meu", afirma Lula, desde que foi pego na mentira, réu por corrupção, ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro.
"Não cometi crime nenhum, sou inocente [ela diria 'inocenta'] e não
tenho conta no exterior", afirma Dilma, mesmo tendo sofrido impeachment
por causa das fraudes fiscais que cometeu em seu governo e depois de
Joesley Batista afirmar que abriu uma conta para ela na Suíça, para
depositar dinheiro para a campanha.
"Não viajei em jatinho nenhum. Ou melhor, viajei, sim, num jatinho, mas não sabia que era do Joesley Batista, não sabia quem era o dono do avião."
O triunvirato que está no poder do país há mais de 14 anos ainda não se
deu conta de que esse poder não os blinda mais da verdade. A mentira
nunca teve pernas tão curtas. Certos de que teriam imunidade eterna e
garantia de poder interminável, os políticos do tipo de Lula, Dilma e
Temer ainda não perceberam que cargos de liderança não comportam mais
falta de transparência.
O jogo mudou e alguns jogadores ainda não perceberam as novas
configurações da mesa de apostas. Há no país um novo modus operandi. A
população hoje tem acesso a todo tipo de informação praticamente ao
mesmo tempo em que o fato ocorre; a imprensa, ou pelo menos uma parte
relevante dela, está atenta e informando bem os cidadãos; há uma
crescente e bem vinda cidadania, despertada pelas grandes manifestações
de rua de 2015 e 2016; há o interesse genuíno em entender melhor o que
acontece no país e, finalmente, poucas chances de se comprar "gato por
lebre".
Vivemos na era das câmeras, dos celulares e das redes sociais. "Os
movimentos espalharam-se por contágio num mundo ligado pela internet sem
fio e caracterizado pela difusão rápida, viral, de imagens e de
ideias", afirma Manuel Castells, em seu livro "Redes de Indignação e
Esperança - Movimentos Sociais na Era da Internet".
Como então os políticos brasileiros ainda esperam que o povo acredite em
suas mentiras quase infantis? Em suas desculpas esfarrapadas para
faltas e crimes tão expostos, que chegam a ridicularizar a inteligência
das pessoas? Como podem supor que a população é composta por um bando de
idiotas que acreditarão em tudo que falam? Porque até outro dia a
situação era totalmente favorável aos políticos corruptos. As chances de
serem pegos eram mínimas, dificilmente seriam processados ou perderiam
qualquer direito, graças à imunidade parlamentar e à lerdeza da Justiça.
Mas o mundo mudou. O Brasil mudou. Em pouco tempo vivemos situações que
abriram os olhos da população. Como vem sendo bem dito, os brasileiros
hoje sabem os nomes dos 11 membros do Supremo Tribunal Federal e não
sabem os nomes dos jogadores da seleção. Pode ser exagerada a
comparação, mas o brasileiro está mais ligado, mais informado, mais
indignado e menos tolerante. Resta agora termos o mesmo processo do lado
de lá do balcão: a percepção por parte dos políticos que estamos
virando uma página da nossa história. Deixando para trás um mundo de
corrupção e impunidade para entrar numa era mais transparente e mais
ética. Quem não perceber a mudança ficará para trás.
Voltando ao nosso atual governante: um político acostumado ao bom e
velho sistema, Temer não entendeu nada. Não entendeu as mudanças, não
entendeu os anseios dos brasileiros por mudanças de comportamento. Está
fazendo o mesmo papel patético e ridículo que fizeram seus dois
antecessores, parceiros de chapa e de governo, Lula e Dilma.
Brevemente teremos o resultado da votação pela cassação —ou não— da chapa Dilma-Temer. Caso sobreviva ao TSE, virá
em breve denúncia da PGR que obrigará a Câmara a abrir processo de
impeachment. Por isso, independentemente do veredito do TSE sobre o
governo Temer, sua governabilidade e viabilidade já acabaram.
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