Roberto DaMatta:O Globo
Em 1935, Noel Rosa e Vadico inventam um extraordinário samba intitulado
“Conversa de botequim”, cuja letra descreve uma série de solicitações —
uma “conversa” — entre um cliente demandante e um garçom obediente.
Entre o espirituoso e o irônico, a letra assinala os pedidos cada vez
mais abusados do cliente supostamente superior a um obediente garçom.
Todos os abusos se passam como e são englobado pela chave do “faça-me o
favor” — um forte marcador cultural —, que torna o pedido irrecusável
porque, mesmo quando é absurdo, ele foi feito “educadamente” —
enclausurado pelo favor! Faça-me o favor de ficar imóvel porque vou
assaltá-lo, diria um bandido brasileiro na sua brasileiríssima
cordialidade. Muitos já passaram por esse terrível brasileirismo.
Hoje, quando temos uma disputa surreal entre os poderes da República
sobre quem deve legislar sobre o aborto e a corrupção, com o bom senso
sendo trocado pela infantilidade do “vamos largar tudo” ou do “vamos
ganhar tudo”, vale lembrar esse estilo autoritário que um samba
extraordinário traz à luz de modo tão patente.
Durante muito tempo, eu me interessei pelo que a música popular dizia do
Brasil, e este samba que era tocado pelo piano de mamãe me encantava
pela candura com a qual ele exibia o nosso viés hierárquico e
autoritário camuflado por harmonias e rimas que fazem com que as ordens
em sucessão e os pedidos abusivos do “freguês” alcancem o plano da
comédia, permitindo sua audição pelo ouvinte e garçom sem
questionamentos.
Se repararmos outros estilos em outros mundos, vamos encontrar equações semelhantes.
Na música popular americana, as canções de amor cantam uma sensualidade e
uma sexualidade que contrastam com o puritanismo rotineiro. Ninguém
diria “vamos nos apaixonar” (“let's fall in love”), “faz, faz, faz o que você acabou de fazer” (“do, do, do what you've done before") ou “não negue, satisfaça-me mais uma vez” (“don't deny me satisfy me one more time”) — exceto cantando.
O que não se pode falar, canta-se. O que se pode cantar é coagido pela
correção ou tomado como imoral, conforme revela o conjunto de um gênero
musical que eu analisei no meu livro “Conta de mentiroso” — o chamado
“gênero musical carnavalesco”, em que sugestões sexuais explícitas
passam como brincadeiras típicas do carnaval como “mamãe eu quero
mamar”, “sassacaricando” e tantas outras.
O samba de Noel e Vadico descreve uma sucessão imperativa de pedidos que
vão daquilo que um botequim serve rotineiramente: média com um pão e
manteiga, mas o que se deseja é uma média especial rapidamente trazida,
que não seja requentada e que o pão venha com manteiga à beça
acompanhada de um guardanapo e um copo d’água bem gelada!
Segue-se uma torrente de demandas: fechar a porta da direita, perguntar o
resultado do futebol e se por um acaso o serviçal ficar limpando a
mesa, ameaça-se não pagar a despesa. Ato contínuo, o freguês consciente
de sua autoridade exige caneta, tinteiro, envelope e cartão, objetos
“cultos” significativos em 1935, quando o Brasil flutuava mais em
analfabetismo do que na extraordinária má-fé criminosa de hoje em dia.
Na sequência, cobram-se palitos, cigarro, revistas, isqueiro e cinzeiro,
além de um telefonema ao Seu Osório exigindo um guarda-chuva para o
escritório.
Todas essas ordens são, porém, um preâmbulo para um empréstimo de
dinheiro, pois o cliente gastou o seu no bicheiro (hoje sabemos que a
grana vai para joias, lanchas, sítios etc.). Finalizando, e fechando com
chave mestra o figurino autoritário, solicita-se ao gerente do botequim
que pendure as despesas no cabide ali em frente!
Tal e qual o “governo” pendurou em todos nós os gastos com as
roubalheiras do petrolão, as incompetências com a economia e o
gigantesco aparelhamento do Estado. Hoje, assistimos a demandas
contraditórias e ideologicamente racionalizadas, como o esfaqueamento do
pacote anticorrupção pelo Congresso — enquanto chorávamos todos a
tragédia de um formidável time de futebol desaparecido num desastre de
avião igualmente suspeito de incompetências.
O que aconteceria se nesse botequim que alguns querem transformar o
Brasil outros fregueses ordenassem outras coisas? Como a extinção da
Lava-Jato, a prisão por abuso de autoriade dos promotores, delegados e
agentes da Polícia Federal e se condenasse o juiz Moro ao exílio?
Afinal, o que se vê hoje no botequim de Noel e Vadico é o povo exigindo
mais igualdade e leis anticorrupção. E como o botequim começou a ser
limpo e lavado, todos querem ver o fim do filme.
Agora são as ruas que pedem: façam-me o favor de trazer a decência pública!
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