por Jayme Eduardo Machado.

Em algum ponto de observação, o barão de Montesquieu deve estar
prestando muita atenção na movimentação dos poderes em Brasília. Afinal,
como inventor de sua tripartição, talvez levasse para o túmulo algum
sentimento de culpa por não encontrar, em vida, a solução definitiva da
charada jurídica da “independência, mas com harmonia”. Quer dizer, como
não pisar nos calos dos outros para impor sua vontade, ou não recuar e
manter a pose quando o outro fizer cara feia. Sentiu-se aliviado, é
certo, quando o pragmatismo dos ingleses afrouxou um pouco o nó do
sistema com o tal “checks and balances”. Mas fica preocupado cada vez
que numa democracia latina procura-se, em vão, a solução para o que foi
traduzido como “freios e contrapesos”. Porque, entre outras tantas
situações embaraçosas que enfrentamos – e para que não se perca a piada –
por aqui ora falta freio, caso do atropelamento tentado pelo ministro
Marco Aurélio, ora tromba-se no excesso de peso do poder do senador
Renan Calheiros. Pois esse episódio, e sua jeitosa acomodação pelos
envolvidos, é paradigma para demonstrar que a nossas instituições
republicanas se dão bem, obrigado. E seus agentes, melhor ainda, que
sabem exatamente quando meter o pé no freio ou aprumar os pesos. Mas
quem vai mal são os representados por eles, quer dizer, o povo de quem
emanam - ou deveriam emanar - todos os poderes que a elas delegou (art.
1º. parágr. único da CF).
Então, se devemos proteger as
instituições democráticas, porque colocá-las em risco é ameaça à
República - observação que Alexis de Tocqueville fez há mais de 200 anos
- , não é menos verdade que o maior dos seus inimigos não é o
totalitarismo que possa atacá-las de fora, mas os agentes políticos que
as deslegitimam por dentro. E isso ocorre quando se obrigam a violar a
lei e a Constituição para acomodar interesses pessoais, mas alegam
fazê-lo em benefício da harmonia dos poderes da República. É quando
tem-se a impressão de o tal “poder que emana do povo” não passa de uma
pegadinha constitucional, e de que existe aqui fora uma outra
“república”. Idéia que aliás definitivamente se reforça quando se ouve, a
cada prisão de um suspeito ilustre, o correligionário tomar-se de
espanto: “...caiu a República!”. Pois se não caiu, está a balançar, daí a
suspeita de que a alma do barão de Montesquieu viva em desassossego.
Não estava em seus planos que, para harmonizar suas conveniências
pessoais e institucionais, poderes de Estado tivessem que trabalhar fora
de seus limites constitucionais. Ele acha paradoxal...
* O autor é ex-subprocurador-geral da República
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