Demétrio Magnoli: O Globo
‘Não vamos calar, mas não vamos escalar”. Foi assim que o novo ministro
das Relações Exteriores, José Serra, sintetizou sua orientação sobre o
estremecimento diplomático com a Venezuela e outros países da Aliança
Bolivariana para as Américas (Alba). Nas duas notas emitidas pelo
Itamaraty, o Brasil “rejeita enfaticamente” as “falsidades” propagadas
pelos governos daqueles países sobre “o processo político interno”,
“repudia” as declarações de Ernesto Samper, secretário-geral da Unasul, e
qualifica seus juízos como “incompatíveis com as funções que exerce e o
mandato que recebeu”. São duras respostas à escalada retórica de
líderes que subordinam os interesses de suas nações a conveniências
táticas específicas.
Nicolás Maduro descreveu o impeachment no Brasil como “golpe de Estado
parlamentar” e, na sequência, aplicou um golpe de Estado contra o
Parlamento de seu país, decretando o estado de exceção. O regime
chavista em declínio teme, mais que tudo, as repercussões do impedimento
de Dilma Rousseff sobre a Venezuela. Significativamente, o que assusta o
chavismo aparece refletido na nota da presidente afastada, que enxerga
na “farsa jurídica aqui montada” (isto é, o impeachment supervisionado
por um STF independente) o risco de “desestabilização de governos
legítimos” (isto é, a tirania venezuelana).
No país vizinho, vergado pelo colapso da economia, a maioria parlamentar
eleita deflagrou um processo de revogação constitucional do mandato de
Maduro por via plebiscitária. Sob o efeito demonstração do Brasil, os
eleitores tendem a se libertar do medo e exigir que uma corte suprema
servil ao chavismo obedeça à lei, dando seguimento à convocação da
consulta popular. A escalada diplomática é uma tentativa de dissolver o
impacto da substituição legal do governo Dilma. Os demais países da Alba
apenas fazem eco à gritaria insultuosa oriunda da Venezuela.
O Brasil terá que tomar a iniciativa, em meio à tempestade. Os EUA são
carta fora desse baralho, pois os focos regionais de Barack Obama são a
abertura para Cuba e a conclusão da paz na Colômbia, que depende da
cooperação de Havana e Caracas. No governo e no Itamaraty, uma corrente
quer tomar o “não escalar” ao pé da letra, circunscrevendo a resposta às
notas diplomáticas. Atrás disso, está a crença de que o governo Temer
precisa se firmar internamente, antes de avançar no campo minado da
política latino-americana. Uma corrente oposta argumenta que, nesse
caso, política externa e política interna encontram-se indissoluvelmente
conectadas, não oferecendo ao governo outra alternativa senão a
contraescalada.
De fato, as narrativas “interna” e “externa” sobre o “golpe” são faces
complementares de uma estratégia única. A acusação de ilegitimidade do
governo Temer nasce no PT e desdobra-se na campanha diplomática da Alba.
Serra só podia declarar publicamente que não pretende “escalar”, pois
países sérios não emulam os discursos histéricos de regimes como o da
Venezuela. Contudo, o ministro enfrenta sua prova de fogo, que também é
um teste crucial para o governo Temer. Uma reação tímida, apenas
reativa, redundará em desmoralização do Itamaraty e retardará a
consolidação externa e interna do novo governo.
Na linha da contraescalada, o regime chavista surge como alvo óbvio. A
Venezuela ruma ao abismo econômico, conduzida por um sistema de poder
autoritário e corrupto. Analistas preveem que, no futuro próximo, o país
precisará de ajuda humanitária internacional. O regime controla o
Judiciário, a alta oficialidade militar foi parcialmente incorporada ao
partido oficial e milícias armadas chavistas atemorizam a população.
Líderes opositores encontram-se encarcerados, sob sentenças emanadas de
farsas judiciais. Bloqueando o caminho legal da consulta revogatória,
Maduro semeia a explosão social. O isolamento do governo venezuelano
alinha-se com o interesse nacional brasileiro de prevenir uma guerra
civil em país fronteiriço e atende ao princípio constitucional de defesa
dos direitos humanos no âmbito da política externa.
Não basta, embora seja um bom começo, invocar a cláusula democrática do
Mercosul. A articulação para isolar o regime venezuelano só terá sucesso
se envolver diversos parceiros regionais, especialmente a Argentina de
Mauricio Macri e o México de Enrique Peña Nieto, na denúncia do
autoritarismo chavista e no amparo à Assembleia Nacional eleita. A
necessária contraescalada enseja uma oportunidade para a reconstrução da
arquitetura estratégica da América Latina, por meio da aproximação do
núcleo do Mercosul com a Aliança do Pacífico. No horizonte de Serra,
brilham as luzes de uma ativa diplomacia comercial. Mas, para abrir essa
comporta, o Brasil deve enfrentar o desafio geopolítico evidenciado
pela crise em curso.
A embaixada em Caracas é um ativo valioso na contraescalada. Sem
exageros ou encenações teatrais, ela pode organizar a interlocução
cotidiana com os líderes da Assembleia Nacional e repercutir informações
sobre violações de direitos humanos.
Contudo, sabotará as ações do Itamaraty se continuar sob o comando do
embaixador Ruy Pereira, antigo chefe de gabinete de Samuel Pinheiro
Guimarães, que abandonou à própria sorte a delegação parlamentar
brasileira encarregada de prestar respaldo aos presos políticos
venezuelanos. Uma nova política externa precisa de diplomatas leais ao
interesse nacional, não aos dogmas ideológicos do lulopetismo.
A crise aberta pela escalada do chavismo coloca Serra numa encruzilhada.
Se sucumbir às hesitações inerentes ao governo Temer e aos conselhos de
diplomatas profissionais imersos no pensamento rotineiro, o ministro
será confrontado com um desafio maior no futuro próximo — e terá que
enfrentá-lo em condições piores. Resta-lhe o caminho de assumir a
iniciativa, articulando uma contraescalada serena, mas persistente e
decisiva.
extraídaderota2014blogspot





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