A
morte de Hugo Chávez, após mais de um ano e meio de luta contra o
câncer, deixa a Venezuela órfã do seu grande protagonista dos últimos 21
anos, se levarmos em conta a tentativa de golpe de 1992. Ele atropelou a
velha política "das elites" e prometeu o paraíso à grande maioria de
pobres de um país com uma das maiores reservas de petróleo do mundo e um
de seus maiores exportadores. Populista, criou marcas só aparentemente
inovadoras. Fez de Bolívar o grande inspirador da Revolução Bolivariana e
chamou seu grandioso projeto de "socialismo do século XXI".
Embora
no velho figurino do caudilho latino-americano, ele acumulou poder a
partir de uma nova e sibilina estratégia: usar as instituições
democráticas para corroer a própria democracia. O chavismo é um regime
autocrata que mantém aparências democráticas, enquanto funciona na
prática como uma ditadura "constitucional". Para isso, fez intervenções
arbitrárias, como expurgos e nomeações no Judiciário, para domesticá-lo,
e alterações na distribuição dos colégios eleitorais para que a
oposição, mesmo com mais votos, não conquistasse a maioria das cadeiras
no Legislativo. Neste sentido, faz lembrar a ditadura militar
brasileira, em que havia troca de generais na presidência, mas sem
qualquer possibilidade de ocorrer alternância de forças políticas no
poder, como numa democracia de fato.
As
instituições republicanas venezuelanas foram destroçadas pelo chavismo.
A oposição, vítima de erros como o boicote às eleições de 2006, teve um
bom momento nas eleições de outubro de 2012, quando Henrique Capriles
obteve 45% dos votos, embora insuficientes para evitar nova vitória
chavista.
O
grande problema de regimes assim, autorreferenciados e personalistas, é
justamente quando o chefe morre e entra em pauta a inevitável sucessão.
O tratamento dispensado pela liderança chavista à doença do caudilho,
confirmada em 10 de junho de 2011 pelo então chanceler Nicolás Maduro
como um "abcesso pélvico", assemelha-se ao que se passava na antiga
URSS, quando o chefe do Partido Comunista tinha problemas de saúde. Caía
uma "cortina de ferro" entre o enfermo e o resto do mundo, que dele só
sabia através de comunicados oficiais que quase nada diziam.
O
mesmo segredo cercou a volta de Chávez à Venezuela, na madrugada do dia
18 de fevereiro, após uma internação de 70 dias em Havana para a quarta
cirurgia. O presidente anunciou o retorno pelo twitter e foi internado
num hospital militar sob tanto mistério que muitos chegaram a duvidar de
sua presença em solo venezuelano.
Foi
essencial para seu projeto de poder o colchão de petrodólares inflado
com a disparada do preço do hidrocarboneto. Quando assumiu de fato o
poder, há 14 anos, o barril custava cerca de US$ 25. Nos últimos anos,
mantém-se ao redor dos US$ 100. Com isto, pôde lançar um dos maiores
projetos assistencialistas do mundo, com programas nas áreas de saúde,
educação, habitação e transferência de renda, que de fato reduziram a
pobreza, mas ficaram a dever na melhoria da qualidade de vida, além de
ser apenas uma forma de assistencialismo demagógico, sem sustentação a
longo prazo. Prova disto é que a insegurança se tornou a maior causa de
preocupação popular, e a capital, Caracas, uma das cidades mais
violentas do mundo. Mas o assistencialismo assegurou-lhe imensa
popularidade.
Os
petrodólares permitiram-lhe, também, a projeção externa de seu projeto.
A partir da visão míope, maniqueísta, de que o mundo é dividido entre o
"império" (os EUA) e os demais países, ele comandou uma frente
antiamericana anacrônica, tendo como modelo Cuba, e discípulos, Bolívia,
Equador, Nicarágua, além de influenciar a Argentina kirchnerista. Teve a
amizade do Brasil lulopetista, da Rússia, do Irã. E a simpatia de Dilma
Rousseff, essencial para sua entrada no Mercosul numa manobra conduzida
por Brasília em associação com a Casa Rosada. Nunca deixou, porém, de
vender petróleo ao "império", além de abastecer Cuba em condições
camaradas.
O
"novo" socialismo não dispensa conceitos ultrapassados. O chavismo
produziu uma estatização em massa das empresas venezuelanas, com
resultados desastrosos na produtividade, estímulo à fuga de
investimentos estrangeiros e recursos dos próprios venezuelanos para o
exterior. A economia passou a depender ainda mais do petróleo. A estatal
PDVSA foi transformada em cabide de empregos, além de funcionar como
caixa dos projetos do governo. Descapitalizou-se, e a produção
despencou. Os desequilíbrios na economia produziram alta inflação, de
23,2% em 2012, segundo o FMI, que projeta 28,8% para este ano. O recurso
ao controle de preços levou ao desabastecimento. A infraestrutura sofre
com a falta de investimentos e a população, com os frequentes apagões.
Uma
das piores heranças do caudilho, ao lado da supressão da liberdade de
expressão, é uma economia em frangalhos. Ele ainda se encontrava
internado em Havana quando a Venezuela executou sua décima
desvalorização cambial desde 1983, uma década antes do chavismo, de
pouco mais de 30%. Apenas no período de Chávez as desvalorizações
somaram 992%.
O
governo fez o possível a fim de retardar mais esta alteração cambial,
empurrá-la para o mais distante possível do período eleitoral, de que
Chávez saiu vitorioso, com mais um mandato. Explica-se: a cada
desvalorização da moeda nacional, o "bolívar forte", adjetivo irônico,
as importações ficam mais caras. E como o país é importador maciço de
quase tudo - graças à desarticulação do parque produtivo causada pelas
expropriações chavistas de empresas privadas - o impacto na inflação não
seria desprezível. E não será.
Mas
a desvalorização ajuda as desequilibradas contas públicas, pois aumenta
a arrecadação de impostos que incidem sobre o petróleo, cujo preço sobe
na moeda nacional. A contrapartida, entretanto, é a inflação, também
alimentada pela gastança desenfreada para facilitar a reeleição do
caudilho, em outubro: as despesas públicas subiram 52% e a emissão
total, 62%. Todos são ingredientes infalíveis no estímulo à alta dos
preços. Algo como jogar um fósforo aceso no palheiro.
O
que será do chavismo sem Chávez e no aguçamento da crise econômica? Não
se pode descartar uma luta pelo seu espólio entre os mais próximos
seguidores, como o vice-presidente Nicolás Maduro e Diosdado Cabello,
presidente da Assembleia Nacional e ex-companheiro de armas do ditador.
Para adiar o desfecho, Maduro e Cabello, ouvido o governo cubano,
fizeram letra morta da Constituição, que marcava a nova posse de Chávez
para 10 de janeiro. O argumento era de que, entubado ou não, ele
continuava governando. Mas, sempre que um autocrata morre, o regime que o
representa paga um preço: faltam instituições democráticas que
patrocinem a sucessão de forma natural, sem turbulências. Qual será o
custo de tudo isso ainda se saberá.





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