General da Reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva (filho de um veterano da FEB)
Fevereiro, março e abril marcam as
grandess vitórias da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália em 1945. O
envolvimento na 2ª Guerra Mundial mostrou que o Brasil precisava se tornar uma
potência para garantir a própria segurança e que eram necessários planejamentos
estratégicos de governo, então inexistentes, para vencer obstáculos e alcançar
tal status. As Forças Armadas (FA) foram vetores desse projeto (inacabado), por
participarem da guerra, desde o Atlântico aos céus e montanhas italianas, e
criarem a Escola Superior de Guerra, pioneiro centro de estudos estratégicos e
planejamento governamental no Brasil.
As potências tinham pelo Brasil - rico,
mas subdesenvolvido, periférico e mestiço - um misto de desprezo, benevolência,
interesses e preconceito racial similar ao arianismo alemão. Esses sentimentos
se estendiam às FA e, assim, a FEB teve de vencer grandes desafios desde a sua
formação no Brasil até se tornar um eficaz instrumento de combate. Os EUA
demoraram a entregar os meios para a força brasileira, pois eram necessários a
seu Exército e aos de outros aliados já em operações e preparando a invasão da
França, bem como pela dúvida se a FEB iria mesmo à guerra. O equipamento e o
armamento só foram recebidos na Itália e a FEB entrou em operações com
preparação incompleta, substituindo um Corpo de Exército dos EUA e o Corpo
Expedicionário Francês transferidos para a França, ambos em combate havia mais
de um ano. Lutou num teatro de operações (TO) montanhoso e favorável à defesa,
mesmo com forças reduzidas, máxime sendo tropas aguerridas, bem equipadas e
experientes do Exército Alemão, reconhecido como o mais profissional do mundo.
Foi empregada contra a poderosa Linha Gótica em Monte Castelo, no início do
inverno e após a derrota, em toda a frente, da ofensiva anglo-americana para
romper aquela linha e alcançar o vale do rio Pó. Portanto, as condições
desaconselhavam operações de vulto. A tropa americana encarregada de proteger o
nosso flanco fora desalojada pelo alemão e a força atacante era inferior à
exigida pelo objetivo imposto, como ponderou o comandante da FEB. Atacar,
recuar combatendo em ordem e permanecer no front sem ser substituída já foi um
mérito.
Apontar falhas do escalão subordinado,
particularmente força estrangeira de país periférico, foi menos comprometedor
para o comando americano do que assumir a responsabilidade pelo erro de
avaliação da capacidade do inimigo, do valor defensivo do terreno e do poder de
combate necessário para derrotá-lo. Os Exércitos Inglês e Americano, também
valorosos, sofreram reveses ao empregarem forças com preparação incompleta em
Dunquerque (França), na África, Filipinas e Sudeste da Ásia entre 1940 e 1943.
O General Eisenhower assim comentou os insucessos americanos na Tunísia em
1943: “foi a inexperiência, particularmente dos comandantes. As divisões
americanas --- não foram beneficiadas com os programas de treinamento intensivo
--- permaneceram separadas de seu armamento e de grande parte de seu
equipamento durante um longo período --- Os comandantes e as tropas
evidenciaram os efeitos dessa anomalia --- embora não lhes faltasse a coragem e
o caráter sua eficiência inicial não se compara com a demonstrada --- depois de
um ano de treinamento”. O mesmo se diga da FEB na Itália.
As missões da FEB, enquadrada pelo IV
Corpo de Exército dos EUA (IV CEx) que tinha uma divisão blindada, foram
cumpridas conforme as possibilidades de uma tropa a pé, conquistando objetivos
importantes para o IV CEx contra um inimigo material e moralmente apto a
defender o terreno. Os quatro reveses em Monte Castelo, os dois primeiros sob
comando e em conjunto com forças americanas, foram frutos de precipitação e má
avaliação do IV CEx e, reconheça-se, de nossas carências de preparação,
superadas em dezembro de 1944 e janeiro de 1945, nos confrontos entre pequenas
frações no front e não em campos de instrução à retaguarda. A conquista
do Monte Castelo alentou a confiança do comando americano, consolidada com as
vitórias de Castelnuovo, Montese e Fornovo, onde derrotou a 148ª Divisão Alemã,
primeira força de tal magnitude a se render na Itália. A experiência da FEB é
uma história de combates de pequenas frações, subunidades e unidades, como é a
tônica em TO montanhosos. Sargentos, tenentes, capitães e comandantes de
unidades, amadureceram em combate para vencer o maior desafio do soldado - a
hora da verdade - enfrentar o fogo inimigo com equilíbrio emocional,
competência e coragem.
No Brasil, alguns trabalhos analisam a FEB
sem a devida contextualização, como se ela pudesse ser decisiva na guerra e o
inimigo fosse irrelevante. Ora, o seu papel foi tático, não estratégico. Era
apenas uma das divisões (na Europa eram 69 só dos EUA) de um dos corpos de
exército, de um dos dois exércitos aliados, num TO secundário. No Brasil,
poucos estudam tática, combate e história militar para opinar com embasamento e
muitos, por servidão intelectual, não questionam opiniões emanadas das metrópoles
culturais. Existe, ainda, o revisionismo histórico ideológico, ação da
estratégia gramcista de padronização mental para minar o
patriotismo.
Hoje, o preparo de uma força de paz de mil
militares para o Haiti, onde a ameaça é de gangues armadas só de fuzil, leva
seis meses. O Brasil de 1943 mobilizou 25 mil combatentes, em um
ano, para enfrentar nada menos do que a Wehrmacht. A FEB foi a afirmação da
dignidade nacional diante das afrontas nazifascistas afundando navios e matando
dois mil brasileiros. Nossos irmãos e irmãs Pracinhas honraram a Pátria
com o risco ou o sacrifício da própria vida. Muitos não voltaram para
viver as alegrias e conquistas de uma vida plena, trabalhando, constituindo
família e criando filhos. Os que voltaram foram esquecidos. Infelizmente é
assim: se servistes à Pátria que vos foi ingrata, vós fizestes o que
devíeis, ela o que costuma (Padre Antônio Vieira).





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