Reinaldo Azevedo
Não! Chávez não era metade gênio e metade idiota. Era cem por cento idiota, além de comandar um governo infiltrado pelo terrorismo e pelo narcotráfico
A morte de Hugo Chávez revela que estamos vivendo dias um tanto sombrios. Os valores da democracia estão em crise. Basta ler o noticiário para constatá-lo. Chego à conclusão de que os idiotas e os simpatizantes de tiranias supostamente virtuosas estão no comando de alguns veículos da imprensa, ainda que eles próprios dependam vitalmente da liberdade. Por que escrevo isso? Vamos ver.
A antiga
pauta de esquerda — a revolução socialista — foi definitivamente
aposentada. Assumiu, ao longo do tempo, uma nova configuração, bem mais
fragmentada. Vivemos sob o signo da reparação das chamadas “injustiças
históricas”: com os pobres, com os negros, com os indígenas, com as
mulheres, com os gays, com os quilombolas, com a natureza… Escolham aí. A
cada pouco surge uma nova “minoria” — sociologicamente falando —
disposta a impor a sua pauta como precondição para a justiça universal. É
evidente que não tenho nada contra a justiça, ora bolas! Por que não
seria eu também um homem tão bom quanto os ciclistas, por exemplo? É
claro que sou! É alguém me falar do bem, do belo e do justo, e estou
dentro, estou com os bacanas.
Se todo
mundo quer um mundo perfeito, não serei eu a ficar fora dessa festa. A
questão é saber como essas reparações todas serão realizadas no âmbito
da democracia, de uma sociedade de direito, que respeite os direitos
individuais. Governar com ditadura é fácil; com democracia é que é o “x”
do problema.
Cansei de
ler nestes dois dias alguns raciocínios perigosos. Eles consistem
basicamente na aceitação tácita de que a melhoria de alguns indicadores
sociais na Venezuela — e houve — estão atreladas ao “modelo” inventado
por Hugo Chávez. O desemprego, com efeito, caiu de 14,5% em 1999, quando
ele chegou ao poder, para 8% no ano passado. Mas também chegou a 18% em
2003, no seu quinto ano de governo. Já a inflação era de 29,9% em 1998,
quando ele foi eleito pela primeira vez, e chegou a 33% no ano passado.
O seu menor índice foi em 2001, com 12%. O IDH subiu de 0,656 para
0,735 em 2011 e passou, por exemplo, o do Brasil.
Não é
segredo para ninguém que Chávez usou o dinheiro farto do petróleo para
empreender um forte programa assistencialista. E é esse assistencialismo
que garante a adesão entusiasmada dos mais pobres a seu governo. Também
é claro as ditas elites tradicionais da Venezuela estavam entre as mais
corruptas e socialmente insensíveis do mundo — o que acaba facilitando a
emergência de líderes com o seu perfil. Vale para a Venezuela, a
Bolívia, o Equador… Mas a rapacidade das ditas-cujas justifica o modelo
bolivariano?
Chávez
tomou, sim, iniciativas que minoraram o sofrimento dos mais pobres. Isso
não está em debate. A questão é saber por que ele precisava da
ditadura. A questão é saber por que ele precisava apelar a um regime de
força. Essas perguntas não têm resposta porque simplesmente a pantomima
bolivariana era desnecessária. Lula também tentou impor alguns
instrumentos de exceção no Brasil. Não conseguiu — não ainda ao menos. E
nada impediu o petismo de levar adiante a sua lenda.
O presente que corrói o futuro
Chávez transformou a Venezuela no, se me permitem, país da manocultura do petróleo. Estão lá 25% das reservas mundiais do óleo. Enquanto ele for uma matriz energética — e será ainda muito tempo —, é evidente que o país contará com dinheiro para manter as políticas assistencialistas, ainda que produza muito menos do que pode. Notem: essas políticas não são um mal em si. Mas para que futuro apontam quando se tornam um fim em si mesmas?
Chávez transformou a Venezuela no, se me permitem, país da manocultura do petróleo. Estão lá 25% das reservas mundiais do óleo. Enquanto ele for uma matriz energética — e será ainda muito tempo —, é evidente que o país contará com dinheiro para manter as políticas assistencialistas, ainda que produza muito menos do que pode. Notem: essas políticas não são um mal em si. Mas para que futuro apontam quando se tornam um fim em si mesmas?
Apontam
para o desastre. Chávez acabou com o que havia de agricultura de ponta
na Venezuela, por exemplo. O país não produz mais comida. Expropriou
empresas estrangeiras, espantou o capital privado e transformou milhões
de venezuelanos em estado-dependentes. Sem a diversificação da economia —
impossível no regime bolivariano —, assim continuarão. O petróleo
responde por 50% das receitas do governo e constitui quase 100% da
receita de exportação. Nas palavras do economista venezuelano Moisés
Naim ao Wall Street Journal: “Nunca um líder latino-americano perdeu
tanto dinheiro, gastou tão mal os recursos e usou de maneira tão
incorreta o poder que lhe foi dado”. Na mosca!
Os tontos
Não, senhores! O autoritarismo de Chávez não era uma espécie de mal necessário a justificar, então, um bem — a saber: a redução da pobreza e a diminuição da desigualdade. Esse e um juízo delinquente e está na raiz, diga-se, das exegeses malandras sobre o 54 anos da ditadura cubana. Durante décadas, o suposto bem-estar social de Cuba serviu para ocultar os crimes dos irmãos Castro. Pelo menos cem mil pessoas morreram (17 mil fuziladas; as demais tentando fugir da ilha) sob o silêncio cúmplice do resto do mundo para que se construísse por lá aquele paraíso…
Não, senhores! O autoritarismo de Chávez não era uma espécie de mal necessário a justificar, então, um bem — a saber: a redução da pobreza e a diminuição da desigualdade. Esse e um juízo delinquente e está na raiz, diga-se, das exegeses malandras sobre o 54 anos da ditadura cubana. Durante décadas, o suposto bem-estar social de Cuba serviu para ocultar os crimes dos irmãos Castro. Pelo menos cem mil pessoas morreram (17 mil fuziladas; as demais tentando fugir da ilha) sob o silêncio cúmplice do resto do mundo para que se construísse por lá aquele paraíso…
Mas os
tempos — e então volto ao ponto central deste texto — andam simpáticos
às ideias de reparação a qualquer preço. Se Chávez sucedeu as ditas
“elites insensíveis” de antes, então tudo lhe seria permitido, inclusive
a violação dos fundamentos mais comezinhos da democracia e, não custa
notar, do direito internacional. Nem mesmo se pergunta o óbvio: como
poderia estar hoje a Venezuela se ele não tivesse destroçado a economia
do país? Os ditos programas sociais poderiam estar em vigência, certo?
Por que não? Talvez houvesse menos venezuelanos trabalhando para órgãos
estatais ou dependentes da ajuda oficial. Certamente o povo seria mais
livre.
Chávez
distribuiu, sim, parte da riqueza do petróleo por intermédio desses
programas, com os quais cevou o eleitorado. Mas roubou, e por muitos
anos, o futuro do país, que terá de ser reconstruído — a começar das
instituições.
Exportador da “revolução” e importador do terror
Cumpre lembrar, ainda, do Chávez “exportador da revolução”. Meteu as patas no Equador, na Bolívia e até na Argentina. Enviou uma mala com US$ 800 mil para ajudar a financiar a primeira eleição de Cristina Kirchner. Inspirou a tentativa de golpe em Honduras e depois tentou articular, com a ajuda do Brasil, uma guerra civil naquele país. Armou, isto ficou comprovado, os narcoterroristas das Farc, da Colômbia, e se fez seu interlocutor privilegiado. Em Caracas, há uma praça com o nome do fundador do grupo: Manuel Marulanda. Atenção! Quando o coronel tentou dar um golpe na Venezuela, em 1992, os narcoterroristas lhe enviaram 100 mil pesos — mais ou menos US$ 50 mil à época. No poder, o ditador repassou para os bandidos estupendos US$ 300 milhões. As informações estavam no laptop do terrorista morto Raúl Reyes.
Cumpre lembrar, ainda, do Chávez “exportador da revolução”. Meteu as patas no Equador, na Bolívia e até na Argentina. Enviou uma mala com US$ 800 mil para ajudar a financiar a primeira eleição de Cristina Kirchner. Inspirou a tentativa de golpe em Honduras e depois tentou articular, com a ajuda do Brasil, uma guerra civil naquele país. Armou, isto ficou comprovado, os narcoterroristas das Farc, da Colômbia, e se fez seu interlocutor privilegiado. Em Caracas, há uma praça com o nome do fundador do grupo: Manuel Marulanda. Atenção! Quando o coronel tentou dar um golpe na Venezuela, em 1992, os narcoterroristas lhe enviaram 100 mil pesos — mais ou menos US$ 50 mil à época. No poder, o ditador repassou para os bandidos estupendos US$ 300 milhões. As informações estavam no laptop do terrorista morto Raúl Reyes.
É pouco?
Chávez celebrou acordos de cooperação militar E NUCLEAR com o Irã, e o
Hezbollah, movimento terrorista baseado no Líbano e que é satélite do
país dos aiatolás, estabeleceu uma base de operações na Venezuela.
As
relações do estado venezuelano com o narcotráfico também já estão mais
do que evidenciadas. Em abril do ano passado, o juiz Eladio Aponte
Aponte, da Corte Suprema do país, fugiu para a Costa Rica. Pediu para
entrar no sistema de proteção que a agência antidrogas dos EUA oferece
aos delatores considerados importantes. Confessou que, a pedido do
governo, atuou para proteger o narcotráfico. Nada menos de metade da
cocaína que entra nos EUA tem origem na Venezuela. Leiam trecho de
reportagem de O Globo de 7 de maio de 2012
[o juiz]
deu como exemplo um caso no qual está envolvido um ex-adido militar
venezuelano no Brasil, o tenente-coronel Pedro José Maggino Belicchi.
Segundo o juiz-delator, Maggino Belicchi integra a rede militar que há
anos utiliza quartéis da IVª Divisão Blindada do Exército da Venezuela
como bases logísticas para transporte de pasta-base e de cocaína
exportadas por facções da Farc, a narcoguerrilha colombiana. O
tenente-coronel foi preso em flagrante no dia 16 de novembro de 2005,
com outros militares, transportando 2,2 toneladas de cocaína em um
caminhão do Exército (placa EJ-746).
Na presidência da Suprema Corte, Aponte Aponte diz ter recebido e atendido aos apelos da Presidência da República, do Ministério da Defesa e do organismo venezuelano de repressão a drogas para liberar Magino Belicchi e os demais militares envolvidos. Faz parte da rotina judicial venezuelana, ele contou na entrevista à televisão da Costa Rica.
O general Henry de Jesus Rangel Silva, citado pelo juiz-delator, comandou a Quarta Divisão Blindada, uma das unidades mais importantes do Exército venezuelano. Desde 2008, ele figura na lista oficial de narcotraficantes vinculados às Farc colombianas e cujos bens e contas bancárias estão interditados pelo governo dos Estados Unidos. Em janeiro, o presidente Hugo Chávez decidiu condecorá-lo em público e promovê-lo ao cargo de ministro da Defesa. “Rangel Silva é atacado”, justificou Chávez em discurso.
(…)
Na presidência da Suprema Corte, Aponte Aponte diz ter recebido e atendido aos apelos da Presidência da República, do Ministério da Defesa e do organismo venezuelano de repressão a drogas para liberar Magino Belicchi e os demais militares envolvidos. Faz parte da rotina judicial venezuelana, ele contou na entrevista à televisão da Costa Rica.
O general Henry de Jesus Rangel Silva, citado pelo juiz-delator, comandou a Quarta Divisão Blindada, uma das unidades mais importantes do Exército venezuelano. Desde 2008, ele figura na lista oficial de narcotraficantes vinculados às Farc colombianas e cujos bens e contas bancárias estão interditados pelo governo dos Estados Unidos. Em janeiro, o presidente Hugo Chávez decidiu condecorá-lo em público e promovê-lo ao cargo de ministro da Defesa. “Rangel Silva é atacado”, justificou Chávez em discurso.
(…)
Encerrando
Alguns indicadores sociais da Venezuela melhoraram, sim. É obrigação dos governos. O mesmo se deu em países que se mantiveram no rumo democrático. A ditadura, pois, foi uma escolha de Chávez e de sua camarilha que independe dessa ou daquela medidas.
Alguns indicadores sociais da Venezuela melhoraram, sim. É obrigação dos governos. O mesmo se deu em países que se mantiveram no rumo democrático. A ditadura, pois, foi uma escolha de Chávez e de sua camarilha que independe dessa ou daquela medidas.
O cem por
cento idiota deixa um país com as instituições em frangalhos, com a
economia combalida, com uma inflação da ordem de 30%, infiltrado pelo
terrorismo e pelo narcotráfico. O homem que morre, reitero, merece
piedade, como qualquer um. O ditador, no entanto, nunca deveria ter
existido. A América Latina está mais sã. Agora é preciso desalojar, pela
via democrática e pela luta política, a camarilha criminosa que está no
poder.
Por Reinaldo Azevedo





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