Kim Kataguiri: Folha de São Paulo
A democracia impôs uma dura derrota ao golpismo. Ainda que o governo
estivesse subtraindo e loteando a República em "tenebrosas transações", o
maior medo de Dilma Rousseff se concretizou: a Câmara dos Deputados
autorizou o Senado a abrir o processo de impeachment. É o fim da crise?
Não, mas é uma vitória importante e histórica que sinaliza um novo
começo.
Com a autorização dada pela Câmara, as atenções voltam-se para o Senado.
Renan Calheiros será pressionado para que o julgamento da denúncia
corra o mais rápido possível e, da mesma maneira que os deputados foram
cobrados nas redes sociais e em suas bases eleitorais para votar "sim",
os senadores também o serão.
Ao que tudo indica, o processo terminará por cassar o mandato de Dilma
sem maiores problemas. Fora, é claro, alguma firula protelatória no STF
ou a clássica baderna dos movimentos representantes da rebeldia a favor e
do fascismo vermelho.
É importante ressaltar que o impeachment não é a solução para todos os
problemas do país. No dia seguinte à queda de Dilma Rousseff, os
serviços públicos continuarão péssimos, o desemprego e a inflação
continuarão altos, a desigualdade social ainda será gritante, e a
corrupção continuará existindo.
Reconstruir o país será mais difícil do que tirá-lo das mãos daqueles que o destruíram.
Os diversos setores da sociedade civil que estão unidos para derrubar o
governo mais corrupto da história do país devem continuar trabalhando em
conjunto no pós-Dilma. Todo o esforço de conscientização política e
amadurecimento da democracia que vem sendo feito deve continuar.
Devemos fiscalizar rigorosamente o próximo governo para que cumpra a
Constituição. Também precisamos exigir que a sociedade seja ouvida para a
proposição de uma agenda política, econômica e social condizente com as
necessidades do país. Cometer o mesmo erro de Dilma Rousseff, impondo
pautas políticas de cima para baixo, seria um erro fatal.
Além disso, todas as experiências vividas por aqueles que lutaram contra
o governo petista, como os gigantescos protestos combatidos com
discursos fantasiosos e mobilizações de milicianos e militantes pagos; o
trabalho de pressão sem precedentes que foi feito para garantir os
votos necessários para o impeachment; as investigações e revelações que
desconstruíram uma ditadura baseada na propina; a defesa e o
fortalecimento de instituições democráticas, que foram violadas durante
mais de uma década, devem servir de base para o novo período que nossa
democracia vivenciará.
A luta contra a sombria ditadura militar é a narrativa fundadora do PT e
de seus aliados, que a utilizaram para executar o projeto de poder que
destruiu o país. A tortura, a perseguição e a censura que puniram
aqueles que se opuseram àquele regime autoritário marcaram uma geração
de políticos que pautou a política pós-redemocratização e transformou
uma resistência virtuosa em justificativa para o crime.
A queda de Dilma Rousseff significa a derrocada da mística petista, o
fim de um ciclo. E todo o esforço que vem sendo empenhado na luta contra
o autoritarismo e a delinquência do atual governo será contado como a
fundação de uma geração que não aceita ataques à República, o início de
um novo tempo para a democracia.
O impeachment é só o começo da mudança.
extraídaderota2014blogspot





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