por José Casado O Globo
Quem
se chocou com as cenas da votação na Câmara, pode ter certeza de que só
viu as cenas mais suaves. Governo e Congresso são prisioneiros de uma
crise de legitimidade
Ganharam os historiadores. Terminaram a semana com fartura de material
sobre o anacronismo dos métodos de se fazer política no Brasil. Quem se
chocou com a votação da Câmara, pode guardar a certeza de que só
assistiu às cenas mais suaves.
São duas as razões para as sucessivas evocações a Deus, na votação que
deflagrou a destituição do governo Dilma. Primeiro, Ele nunca reclama.
Segundo, todos sabem que é o único sem qualquer culpa nessa história.
A retórica chula, às vezes ressentida, predominante no microfone da
Câmara, continha uma mensagem objetiva sobre o estado de decomposição
das relações entre as forças políticas dominantes. Governo e Congresso
estão enjaulados numa grave crise de legitimidade.
O Judiciário contribuiu, de forma decisiva, na última década. O Supremo
Tribunal Federal estimulou quando abriu uma janela para o florescente
negócio da criação de partidos.
Eliminou a exigência de desempenho eleitoral mínimo (cláusula de
barreira) e mudou a “propriedade” do mandato. Subtraiu-a do eleitor e
entregou à burocracia partidária.
Já são 35 partidos com registro oficial. Na vida real, são pessoas
jurídicas de direito privado, com acesso privilegiado aos cofres
públicos. Têm garantido o usufruto de propaganda no rádio e na
televisão, sustentada por isenções fiscais. E, também, a garantia de uma
fatia do orçamento federal, via Fundo Partidário, estimada em R$ 900
milhões neste ano.
Os governos Lula e Dilma metabolizaram essa fragmentação no delírio da
montagem da “maior base parlamentar do Ocidente”, como definia José
Dirceu. Ampliaram para quatro dezenas os ministérios e aumentaram para
23 mil os cargos-chave na administração utilizáveis segundo a
conveniência política, além da partilha do comando das empresas
estatais. Deu no mensalão e nos inquéritos sobre corrupção na Petrobras e
outras empresas estatais.
Quem ficou chocado com as cenas do início do impeachment, talvez se
apavorasse com o mercado livre que antecedeu a votação em Brasília.
Lula, principal negociador das salvaguardas ao mandato de Dilma,
descreveu como uma “Bolsa de Valores”. Deputados comentavam as
“cotações” do relativismo ético: R$ 1 milhão por ausência, R$ 2 milhões
pelo voto no plenário.
O pacote incluía adicionais em cargos, créditos e mimos diversos para
prefeitos e governadores aliados — da desapropriação de terras à doação
de áreas cultiváveis na floresta amazônica, parte em terras indígenas.
No caos, o PT de Lula e Dilma passou a disputar espaço com novos
aliados, como o Partido Trabalhista Nacional. Chapadinha, deputado pelo
PTN, levou uma diretoria do Incra no Pará. Os petistas locais souberam
da negociação e promoveram uma greve no Incra de Santarém.
No sábado, véspera da votação, imprimiu-se uma edição extra do Diário
Oficial. Ficaram visíveis 63 nomeações emergenciais para 22 órgãos
federais. Dilma perdeu por 72%.
É com essa lógica anacrônica que os generais de Dilma preparam a batalha
final no Senado. O governo acha que tem 22 votos. Precisa garantir mais
seis e somar 28 para evitar o “Tchau, querida!” dos senadores.
Deus, é claro, não tem nada com isso.
extraídaderota2014blogspot





0 comments:
Postar um comentário