editorial da Folha de São Paulo
É uma autêntica tradição da política brasileira que, em meio a crises
lancinantes, apareça alguém com uma proposta parlamentarista.
Cogita-se disso (ou de um "semipresidencialismo") na cúpula do Senado,
que instalou comissão especial para estudar o tema. Em artigo recente na
imprensa, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) relançou a
ideia de uma "Presidência forte e equilibradora, mas não gerencial".
Para além das ambições pessoais deste ou daquele senador a que possa convir, compreende-se o atrativo da propositura.
Sistemas parlamentaristas tornam a maioria no Legislativo responsável,
porque interessada no êxito do governo, ao mesmo tempo em que permitem
abreviar sem trauma uma administração que tenha fracassado. Por
valorizar essas vantagens, do prisma doutrinário esta Folha apoia há décadas o parlamentarismo.
Mas adotá-lo de improviso, num passe de mágica congressual, não parece
indicado. Seria um remendo comparável ao de 1961, logo revogado pelo
plebiscito de 1963, que restaurou os poderes da Presidência. Uma segunda
consulta popular, feita em 1993 a mando da nova Constituição, confirmou
a anterior por larga maioria (55,6% X 24,9%).
A fim de não configurar intolerável golpe de cúpulas, qualquer solução
do tipo demandaria aprovação num terceiro referendo. Sobretudo no caso
de se pretender implantar a medida durante o atual mandato, seja com a
atual presidente reduzida a figura decorativa, seja com o vice em seu
lugar.
Difícil crer, ainda assim, que a maioria do eleitorado se disponha a
conferir mais poderes a um Congresso que é desprezado em escala quase
universal.
Mesmo que terminasse aceito, tal arranjo não estaria assentado em
persistente campanha de persuasão pública que houvesse formado lastro na
sociedade. Decerto seria a primeira coisa que o presidente eleito com
imensa legitimidade em 2018 trataria de desfazer.
Somadas as dificuldades, a sugestão resulta inviável. Parte de seu
espírito, no entanto, poderá se materializar na prática, uma vez que um
eventual governo Michel Temer (PMDB) necessitaria de ampla base
parlamentar e concederia o que fosse necessário para conquistá-la, na
tentativa de confinar na oposição apenas o que restasse do PT e sua
franja ideológica.
O futuro parece mais volátil do que nunca, exceto pela sólida convicção
de que a solução da crise acontecerá dentro da lei. Em meio ao cenário
desolador, as instituições têm dado provas de bom funcionamento. Não é
hora de mexer na única parte do sistema que vai bem.
extraídaderota2014blogspot





0 comments:
Postar um comentário