Demétrio Magnoli: O Globo
Lula
deixou a Presidência, mas não o poder, o que pode ser verificado pelas
quedas sucessivas de Aloizio Mercadante, Joaquim Levy e José Eduardo
Cardozo
‘Esta pergunta não está à altura da Polícia Federal”, reagiu um
arrogante Lula ao ser indagado, na fatídica sexta-feira, sobre os
pedalinhos mantidos no sítio de Atibaia. Mas a lógica da pergunta
decorre da regra “siga o dinheiro”. No rastro dos pedalinhos, há muito
mais que a propriedade do próprio sítio. Eles indicam o caminho da
Internacional lulista — uma articulação que, ao contrário das
internacionais operária, socialista, comunista e trotskista, rege-se por
um misto de política e negócios.
Do Casco Antiguo da Cidade do Panamá, não se avista mais a península. “O
horizonte do Golfo se perdeu”, lamenta a presidente de uma organização
consagrada à proteção do patrimônio histórico do país ístmico. De fato,
em 20 de maio de 2011, foi inaugurado o viaduto de seis pistas e 2,8
quilômetros que rasga o mar à frente do centro histórico, uma obra da
Odebrecht contratada por US$ 780 milhões. Lula participou da
inauguração, a convite do presidente panamenho Ricardo Martinelli, com
quem participaria de um jantar oferecido pela Odebrecht. O evento contou
com a presença do ministro José Domingo Arias, candidato do presidente a
sucedê-lo, que acabou derrotado em 2014, apesar dos esforços do
marqueteiro João Santana.
Lula, Odebrecht, Santana. Na Internacional lulista, o quarto componente é
o BNDES, responsável pelo financiamento do metrô da capital panamenha e
da Autopista Madden-Colón, obras tocadas pela mesma Odebrecht, que
venceu todas as grandes licitações no governo Martinelli. O Panamá não é
um caso singular: o esquema quadripartite repetiu-se na Argentina
(Ferrovia Sarmiento), no Peru (Hidrelétrica de Chaglla), na Venezuela
(ponte sobre o Orenoco e metrô de Caracas), na República Dominicana
(Termelétrica de Punta Catalina e 16 outras obras) e em Angola
(Hidrelétrica de Lauca e dezenas de outras obras).
Sem Santana, mas com a Odebrecht e o BNDES, a Internacional operou em
Moçambique (BRT de Maputo e Aeroporto de Nacala), no Equador
(hidrelétricas de San Francisco e Manduriacu) e em Cuba (Porto de
Mariel). Finalmente, com a Odebrecht e Santana, mas sem o BNDES (ufa!),
seus tentáculos alcançaram El Salvador.
“Lula é uma fonte de inspiração para a América Latina”, proclamou Danilo
Medina, presidente da República Dominicana, em janeiro de 2013, durante
uma visita de Lula patrocinada pela Odebrecht e seguida pela concessão
de vultosa linha de financiamento do BNDES. A Internacional dos negócios
expandiu-se em países sob governos “progressistas”, um adjetivo com
dúbios significados políticos. Na América Latina, apoiou-se nos ombros
do chavismo, do kirchnerismo e do castrismo, mas estabeleceu laços com
líderes populistas como Ollanta Humala, do Peru, Mauricio Funes, de El
Salvador, e o próprio Medina. Na África, ligou-se ao ditador angolano
José Eduardo dos Santos, do MPLA, presidente desde 1979, que converteu
os processos eleitorais em farsas macabras e comanda um dos regimes mais
corruptos do mundo.
Tudo começou durante os mandatos de Lula, mas prosseguiu sob Dilma
Rousseff. Bombado por multibilionárias transferências de recursos
oriundos da emissão de dívida pública, o BNDES lançou-se numa escalada
de financiamentos no exterior. A Odebrecht, a maior beneficiária deles,
obteve cerca de US$ 8 bilhões. Dias atrás, na esteira do depoimento de
Lula, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, disse que será
preciso “dialogar com o povo brasileiro” para “explicar como são feitas
as palestras, em que países aconteceram”. Há muito a explicar, mas
inexiste mistério sobre os países selecionados: em geral, coincidem com
empreendimentos da Odebrecht subsidiados pelo BNDES.
Lula deixou a Presidência, mas não o poder, o que pode ser verificado
pelas quedas sucessivas dos ministros Aloizio Mercadante, Joaquim Levy e
José Eduardo Cardozo. O Instituto Lula e a empresa que agencia as
palestras do ex-presidente receberam R$ 56 milhões em quatro anos. Lula
tornou-se, ao lado de Bill Clinton, o palestrante mais caro do planeta.
Sem o BNDES, tais feitos seriam impossíveis. Luciano Coutinho,
presidente do banco público, deveria “explicar” ao “povo brasileiro” os
critérios de seleção dos países e empreiteiras agraciados por
empréstimos subsidiados. Até hoje, ele proferiu platitudes sobre o
estímulo a negócios de empresas brasileiras no exterior, mas nunca
enfrentou a questão do custo de oportunidade desses financiamentos. Num
país tão carente em infraestruturas e saneamento básico como o Brasil,
falta uma justificativa plausível para o direcionamento de capitais
escassos ao metrô de Caracas, ao viaduto monumental do Panamá, ao Porto
de Mariel ou às múltiplas obras do regime cleptocrático angolano.
A ciranda financeira no duto que interliga o BNDES, a Odebrecht e o
Instituto Lula seria suficiente, num país sério, para destruir a
carreira política de Lula e ensejar processos judiciais devastadores.
Tudo se complica com as evidências de que, muitas vezes, o triângulo
transforma-se em retângulo pela adição dos serviços de João Santana,
proprietário de uma empresa de marketing político que já confessou
operar caixa dois nas suas aventuras internacionais. As excessivas
coincidências sugerem que a Internacional lulista, como sua predecessora
comunista, organiza-se sob a égide do “centralismo democrático”.
Num país sério, os pedalinhos, esses singelos presentes aos netinhos de
Lula, poderiam ser ignorados por policiais, procuradores e juízes. Mas,
no Brasil, onde o “governo popular” dedicou-se à modernização das mais
tradicionais práticas patrimonialistas, a Polícia Federal tinha o dever
de formular as perguntas que provocaram a indignação de Lula. Os
pedalinhos não são patrimônios, mas indícios. Seguindo as delicadas
ondulações causadas pelo movimento deles, chegamos a um projeto
internacional que associa poder e dinheiro: a geopolítica do lulismo.
extraídaderota2014blogspot





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