por Clóvis Rossi Folha de São Paulo
Durante debate entre jornalistas brasileiros e espanhóis sobre a
situação nos respectivos países, Felipe Sahagún ("El Mundo") pergunta
quem seria o herói a apontar caso as investigações no Brasil cheguem a
bom termo e se faça a indispensável limpeza.
Atrevo-me a responder: não será um fulano, mas uma instituição, o
Ministério Público. E, indiretamente, o Congresso constituinte de 1988,
capaz de construir uma estrutura institucional sólida.
Há aí duas boas notícias, uma bênção em meio à escuridão profunda dos tempos atuais.
Primeiro, já houve um momento em que a política no Brasil foi capaz de
produzir uma obra sadia e saneadora. Segundo, a solidez que está sendo
demonstrada pelas instituições sobreviverá (tomara) à crise, o que
significa que, passada a tormenta, o país pisará terreno mais saneado do
que o que havia antes de iniciadas as investigações.
Se houver também um saneamento econômico, sem loucuras heterodoxas mas
também sem o austericídio que vitimou países europeus, aí teremos a
bonança perfeita, passada a tempestade perfeita em que o Brasil
mergulhou.
Não digo isso por otimismo e confiança na pátria amada, duas qualidades
que definitivamente não tenho. Digo-o porque há aquela frase, atribuída a
dom Helder Câmara, segundo a qual quanto mais negra a noite, mais
próximo o alvorecer.
Sei que há pessoas, como os advogados dos réus, que falam de insegurança
jurídica provocada pelos atos da Lava Jato. Não é a opinião, por
exemplo, de um executivo (Mário Ruíz Tagle, responsável no Brasil pela
espanhola de energia Iberdrola). "Há segurança jurídica no Brasil,
ninguém está ultrapassando suas funções."
Opinião semelhante a de outros interlocutores nos contatos mantidos em
Madri em programa organizado pela Fundação Conselho Brasil-Espanha,
vinculada ao Ministério de Relações Exteriores da Espanha.
Mesmo no caso de Luiz Inácio Lula da Silva, de longe o mais polêmico,
depõe Carlos Malamud, especialista em América Latina do Real Instituto
Elcano, centro de pesquisas espanhol: "Não há uma ideia de que se tenham
violado direitos humanos ou constitucionais. Não houve nenhuma denúncia
na imprensa espanhola de que se tenham vulnerado os direitos de Lula".
É evidente que não se pode tomar o testemunho de um ou vários executivos
espanhóis como a palavra de todos os seus pares, nacionais ou
estrangeiros. Mas é importante ouvi-los, pelo peso que o Brasil tem para
a economia espanhola.
Depois dos Estados Unidos, a Espanha é o segundo maior investidor no Brasil, com cerca de € 80 bilhões.
No Brasil, atuam 11 das 15 maiores empresas espanholas e dele extraem de 20% a 30% de suas cifras.
"Uma crise no Brasil se reflete imediatamente na Bolsa de Madri", diz Rafael Dezcallar, secretário do Conselho Brasil-Espanha.
É óbvio, portanto, que executivos e/ou acadêmicos espanhóis seriam os
primeiros (na verdade, os segundos, depois dos brasileiros envolvidos) a
gritar "falta" se sentissem que a Lava Jato ameaça seus pares e,
portanto, o clima de negócios.
extraídaderota2014blogspot





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