por Ferreira Gullar Folha de São Paulo
No final da semana passada, ocorreram fatos políticos que, por sua
relevância, mudaram qualitativamente a situação, já crítica, do governo
Dilma Rousseff, do presidente Lula e de seu partido: a divulgação da
delação premiada do ex-líder do governo no Senado Delcídio Amaral e a
condução coercitiva do ex-presidente Lula para depor na Operação Lava
Jato. Não por acaso, em função desses fatos, a presidente Dilma convocou
o ministério para, solenemente, tentar responder às acusações feita
pelo seu ex-representante no Senado e a reação de Lula após o depoimento
que foi obrigado a prestar.
As possíveis consequências da delação feita por Delcídio assustaram o
Planalto, principalmente por suas implicações, dadas as revelações que
contém, que darão vida nova ao processo de impeachment da presidente da
República. Lula tampouco escapa das denúncias feitas pelo seu, até bem
pouco tempo, fiel companheiro de partido.
A delação de Delcídio, embora surpreendente, resulta de uma tendência
inevitável dos envolvidos na Operação Lava Jato, que preferem abrir o
jogo do que pagar a culpa em anos de cadeia. Mais delações virão, como
já está sendo anunciado.
Imagino o que essa ameaça deve provocar no alto comando petista e,
particularmente, em Lula, que sabe muito bem o que fez e o que mandou
fazer ao longo desses treze anos.
A condução coercitiva de Lula para depor surpreendeu a todos e, creio
eu, particularmente a ele, Lula, e a sua turma. De fato, nenhum deles
esperava por isso: Lula conduzido pela polícia para depor! E não só
isso, mas também a ação de busca e apreensão no sítio de Atibaia, no
tríplex de Guaraujá e no Instituto Lula.
Esses fatos implicam uma mudança qualitativa na situação do
ex-presidente na Operação Lava Jato. Ele, mais que ninguém, preocupa-se
com as consequências disso, como demonstra a sua atitude após deixar o
aeroporto de Congonhas, onde depôs: pregou no peito a estrela do PT e
voltou a ser o agitador de outrora.
Tem gente que acha que, com essa atitude, Lula e o PT renasceram, que a
militância petista voltará às ruas e a candidatura de Lula em 2018
ganhou viabilidade. Segundo essa visão, eles deram a volta por cima.
Já minha opinião é outra. A reação de Lula é mais de desespero do que de
confiança. No meu modo de ver, ao ser levado coercitivamente para
depor, ele se deu conta de que não é intocável e que pode acontecer com
ele o mesmo que aconteceu com Marcelo Odebrecht, dono de uma das maiores
empreiteiras do país, e outros poderosos empresários, flagrados pela
Lava Jato, ou seja, entrar em cana.
Não por acaso, o procurador Carlos Fernando Lima, da equipe que conduz a
Operação Lava Jato, afirmou, naquele mesmo dia, que "ninguém está acima
da lei".
Isso, porém, não é tudo. O que explica a atitude de Lula, após o
depoimento daquela sexta-feira, foi ter tomado ciência de que o segredo
das compras do tríplex e do sítio de Atibaia foi desvendado pela equipe
investigativa da Lava Jato.
Conforme declarou o juiz Sérgio Moro, há fortes indícios de que tanto o
tríplex da Guarujá quanto o sítio de Atibaia, pertençam ao senhor Luiz
Inácio Lula da Silva.
Noutras palavras, tudo o que o ex-presidente disse para alegar que tais
propriedades não lhe pertencem, será desmentido pelas investigações já
quase concluídas.
O país inteiro tem visto e ouvido Lula afirmar que aqueles bens não lhe
pertencem e que tais acusações seriam nada mais nada menos que parte de
um plano cujo objetivo é desmoralizá-lo e excluí-lo, a ele a seu
partido, da vida política do país.
Chegou a afirmar que não existe, no Brasil, nenhum cidadão tão honesto
quanto ele. Mas, se revelada a verdade, como ficará ele diante da
opinião pública e de seus próprios seguidores? Corre o risco de passar
por corrupto e mentiroso.
Não tenho dúvida de que o lulopetismo agoniza e a condenação de Lula
seria o golpe de misericórdia. Por isso, deixou de bancar o estadista
para voltar a ser, como antigamente, o inimigo dos ricos e o defensor
dos pobres, atitude, aliás, insustentável, tanto que, dias depois,
estava em Brasília, ameaçado de perder o apoio do PMDB. E não é que o MP
de São Paulo o acusa agora de lavagem de dinheiro e falsidade
ideológica? A coisa está preta.
extraídaderota2014blogspot





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