por Gil Castello Branco O Globo
Jararaca é o nome popular dado a várias espécies de serpentes.
Alimentam-se de ratos e sapos. São vivíparas, ou seja, dão à luz
filhotes. O seu veneno pode ser mortal. Assim sendo, ato falho ou não,
foi curioso ver o próprio Luiz Inácio Lula da Silva comparar-se a uma
cobra, destas que existem em várias regiões das Américas do Sul e
Central.
Para atiçar a sua militância, o ex-presidente disse: “Se quiseram matar a
jararaca, não bateram na cabeça. Bateram no rabo, e a jararaca está
viva como sempre esteve”. Para os procuradores do Ministério Público
Federal, entretanto, já havia suspeitas do rabo preso, antes mesmo da
batida. O fato é que a bravata de Lula foi um tiro no pé e adicionou
milhares de pessoas à maior manifestação da história do país.
Neste domingo, mais de 3,5 milhões de brasileiros reforçaram a repulsa à
jararaca. Há 45 dias, pesquisa divulgada pela Ipsos constatou que para
67% dos entrevistados Lula é tão corrupto quanto os outros políticos. No
início do ano, porém, ainda não eram tão comentados assuntos como o
tríplex do Guarujá, o sítio de Atibaia, o apartamento vizinho ao seu em
São Bernardo, o pagamento da Odebrecht pelo armazenamento de sua mudança
de Brasília, os recursos pagos à empresa de um dos seus filhos e os
presentes recebidos, entre outros.
Poucos sabiam que 47% dos recursos recebidos pela LILS (empresa de
palestras de Lula) e 60% dos valores destinados ao seu instituto vieram
de empreiteiras envolvidas na Lava-Jato: Camargo Corrêa, Andrade
Gutierrez, Odebrecht, UTC, OAS e Queiroz Galvão. Essas empresas, aliás,
se não bastasse tudo o que aprontaram, continuam contratadas pelo
governo federal, sem qualquer impedimento para assinarem novos
contratos, termos aditivos ou participarem de concessões. No ano
passado, juntas, receberam R$ 1,3 bilhão.
Após o MP de São Paulo pedir a prisão preventiva de Lula, aumentou a
possibilidade de o ex-presidente assumir um ministério no atual governo.
Desta forma, pasmem, ele teria e seus familiares até poderiam invocar
foro privilegiado para saírem do raio de ação do juiz Sérgio Moro, tal
como está sendo pretendido pelos familiares de Cunha. Se assim for, Lula
confiará na lentidão e no julgamento político do STF e Dilma, sem apoio
político, entregará definitivamente o governo ao tutor. Se a jogada der
errado, morrerão abraçados. No entanto, para quem está se afogando,
qualquer rolha é boia. Ironicamente, na internet, circula frase
pronunciada por Lula em 1988. “Quando um pobre rouba vai para a cadeia;
quando um rico rouba, vira ministro”.
Como a megamanifestação fortaleceu muito a Lava-Jato e o juiz Sérgio
Moro, a nomeação poderá não se consumar. Mas o que irá acontecer se o
ex-presidente for condenado e preso? Para Lula e os devotos do PT, o
ex-presidente se tornará um herói. Para a maioria dos brasileiros, se
Lula for preso se tornará um presidiário, simples assim.
Certamente, o PT irá espernear, bem como alguns partidos historicamente
aliados. Outros, como o PSB já fez e o PMDB cogita fazer, se tornarão
independentes e irão se posicionar para o eventual afastamento de Dilma e
para as eleições de 2018. Nas ruas, ou na porta do presídio, estarão o
MST, a UNE e a CUT, entidades custeadas, em grande parte, com recursos
públicos. A UNE, por exemplo, de 2003 a 2016, recebeu R$ 57,5 milhões do
governo federal. A CUT, às custas da contribuição sindical que somos
obrigados a pagar, amealhou R$ 59 milhões no ano passado.
Para os brasileiros que foram às ruas no último domingo, não há
corruptos de estimação. Pouco importa se investigações envolvem
doleiros, publicitários, deputados, senadores, governadores, o
ex-presidente, ou mesmo, as campanhas eleitorais da presidente. Nas
manifestações, políticos de vários partidos foram hostilizados. Ninguém
aguenta mais ver o sujo se defender acusando o mal lavado. Na
democracia, pau que bate em Chico, pode bater em Cunha, Cerveró, Renan,
Odebrecht, Lula, Aécio, Alckmin e em qualquer cidadão desde que,
comprovadamente, tenha desrespeitado as leis. Golpe é um “acordão”
interromper a Lava-Jato. Neste momento em que a corrupção é deslavada e
institucionalizada, precisamos conhecer toda a verdade.
Voltando às cobras, para evitar o mal que elas podem causar, é
importante preservar os seus predadores, entre os quais as águias. Uma
delas, Rui Barbosa, disse: “Deus deixou ao homem três âncoras: o amor à
pátria, o amor à liberdade e o amor à verdade. Damos a vida pela pátria.
Deixamos a pátria pela liberdade. Mas à pátria e à liberdade
renunciamos pela verdade”. Assim seja.
Gil
Castello Branco é economista e fundador da organização não
governamental Associação Contas Abertas (gil@contasabertas.org.br)
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