por Mary Zaidan Com Blog do Noblat - O Globo
Luiz Inácio Lula da Silva tem caras, modos e personas variáveis.
Traveste-se de acordo com a conveniência. Transita entre a divindade e o
desvalido, entre a vítima e o general da tropa. Semeia guerra e ódio e
encarna a versão paz e amor quando as circunstâncias o deixam sem
saída. Ruge como leão e rasteja como jararaca. Mas, por mais que tente,
sempre que se veste de cordeiro o lobo escapa.
Depois de ser flagrado sem fantasia em escutas telefônicas autorizadas
pela Justiça, Lula, por aconselhamento da numerosa banca de advogados
que o assessora ou por tino político – ou os dois --, decidiu que é hora
de falar de flores.
Uma carta sentimental na quinta-feira e um discurso contra o ódio na
manifestação pró-Dilma na sexta-feira, em São Paulo, não deixam dúvidas
quanto às intenções do ex.
Já que não era possível negar as gravações em que dispara toda sorte de
xingamentos aos presidentes da Câmara e do Senado, ao Procurador-Geral
da República e ao recém-empossado ministro da Justiça, e à Suprema
Corte, Lula tentou, com a carta, baixar a bola junto aos ministros do
STF, que darão a palavra final sobre seu futuro, seja ele ministro de
Estado ou não.
Na missiva, peça em que assinatura não está necessariamente vinculada à
autoria, Lula se assemelha a uma lady inglesa. No conteúdo e na
linguagem, em nada parecidos com o remetente, que abusa do calão
censurado para menores, na maioria das vezes sujeitos a transcrições que
param na primeira letra da palavra.
No palanque, a história é outra. Lula prega a paz cuspindo ódio.
Em quase meia hora de discurso para uma plateia absolutamente
hipnotizada, Lula – ora ex-presidente, ora ministro, ora presidente –
esforçou-se para cunhar a imagem de pacificador. Usou e abusou de frases
de efeito e da palavra democracia. A ela conferiu variegados
significados, menos o real, já que deu maior valor às pessoas que ali
estavam do que às protestaram contra ele, Dilma e o PT.
Em alguns momentos, Lula até conseguiu seguir o script que traçara para
ele, ao explicar, por exemplo, que iria integrar o governo para ajudar,
não para brigar. Mas pouco durava. O “nós x eles” arraigado no discurso
do ex prevaleceu mesmo quando ele, nitidamente, não queria.
Até a ideia marota de união das cores, em que o vermelho estaria “no
sangue” e o verde-amarelo no “coração” de todos, mostrou o verdadeiro
alvo logo em seguida: “eles têm que saber que estas pessoas que estão
aqui, de vermelho, são parte das pessoas que produzem o pão de cada dia
do povo brasileiro. Elas não estão aqui porque tiveram metrô de graça,
não estão aqui porque foram convocadas pelos meios de comunicação a
semana toda. Elas estão aqui porque sabem o valor da democracia, porque
sabem o valor de fazer o pobre subir uma escala no degrau da economia.
Se eles comem três vezes por dia, nós queremos comer três vezes por
dia."
Por vezes, Lula lembrou o sapo barbudo imortalizado por Leonel Brizola,
esbravejando, com a voz rouca. O velho e batido “nós x eles” permeou
toda a oratória. Até na mensagem pseudo-conciliadora final, quando Lula
pediu que a multidão vermelha não aceitasse provocações, como se um
eventual conflito só viesse do “eles”, jamais do “nós”.
Entre o discurso e os cumprimentos aos companheiros de palanque, Lula
ficou menos de uma hora na Avenida Paulista. Nesse pouco tempo, foi
ministro e deixou de ser por duas vezes devido a liminares concedidas e
cassadas. Anunciou que estaria no Planalto, trabalhando como ministro na
próxima terça-feira, mas saiu de lá sem Ministério, de acordo com a
decisão – também liminar – do ministro do Supremo Gilmar Mendes.
Ministro ou não, Lula está enroscado em nada menos do que seis
inquéritos no âmbito do Ministério Público Federal e um no Distrito
Federal, fora o do MP de São Paulo, despachado para Curitiba pela juíza
paulista.
Por mais que tente remodelar, não há pele de cordeiro capaz de encobri-lo.
extraídaderota2014blogspot





0 comments:
Postar um comentário