por Gaudênco Torquato Com Blog do Noblat - O Globo
A chamada para Lula da Silva assumir a Casa Civil é o reconhecimento
cabal da presidente Dilma de que só mesmo seu tutor será capaz de
garantir o trem da administração federal nos trilhos.
Para cumprir a tarefa de evitar o descarrilamento dos vagões, que se
mostram desengonçados, Lula exige: guinada na economia, com a receita
populista de propiciar o consumo em massa e o acesso da população ao
crédito; direcionar o trem para a esquerda e reconquistar o apoio dos
movimentos sociais; esquecer a ideia de reformar a previdência e
abrandar o ajuste fiscal; enfim, ele deseja reformular as diretrizes
escolhidas por Dilma para seu segundo mandato.
A presidente promete poderes para Lula resgatar a imagem positiva do
governo. Essa era a inflexão que se tinha até virem a público as
gravações autorizadas de conversas entre a presidente e seu mestre e
entre este e outros interlocutores. Ao dizer que estava enviando o
emissário Messias com o Termo de Posse para Lula usar “só em caso de
necessidade”, mesmo sem ter assinado o documento, a versão do Lula
providencial foi substituída pela versão do Lula tentando driblar a
justiça. Dilma lhe mandava um salvo conduto para se livrar de eventual
pedido de prisão ordenada pelo juiz Sérgio Moro. O termo antecipado de
posse é considerado por juristas como meio de obstrução da justiça. Ele
se livraria de condenação na 1ª instância e subiria ao degrau do STF,
que julga pessoas com foro privilegiado.
A volta do ex-presidente para o seu “terceiro mandato” ocorre, assim,
sob uma teia de suspeitas, ainda mais quando sua linguagem rude arremete
contra o Poder Judiciário (“acovardado”), o Legislativo (“acovardado”)
os presidentes da Câmara e do Senado (brindados com termos chulos), a
par de demandas nada republicanas.
O ministro Lula sobe ao quarto andar do Palácio do Planalto sob o apupo
da imensa maioria da população, que manifesta contrariedade contra ele,
Dilma, o PT e, diga-se, outros protagonistas da velha política.
Conseguirá ter sucesso na missão que encampa ou será alijado da cena
política na esteira das graves denúncias que enchem seu roçado?
Para início de conversa, ainda não sentou na cadeira, pois há uma
coleção de recursos contra sua ascensão ao cargo de ministro número 1.
Terá de esperar. Lula põe lenha na fogueira da crise. Seu estoque de
carisma de Lula se esvazia rapidamente. Impressiona a ocupação
espontânea das ruas ao se ouvirem as gravações de suas conversas com
interlocutores, com destaque para o breve diálogo com Dilma. Causam
preocupações as ameaças de conflitos por parte de grupos contrários e
favoráveis a ele e ao governo.
Com os costados arrebentados e previsíveis confirmações das delações
premiadas do senador Delcídio Amaral, do ex-deputado Pedro Correa, do
PP, para quem Lula sabe de tudo desde o mensalão, e de mais delatores,
Luiz Inácio não deverá escapar de julgamento na Corte Suprema. A
pergunta emerge: por que ele tanto luta para ser julgado pelo STF?
Talvez por considerar ter ali um acolhimento melhor que o da Corte de
Curitiba. Afinal, de sua caneta saiu a nomeação de oito ministros do
Supremo, entre os quais três ainda se encontram na Casa (o presidente
Ricardo Lewandovski, Carmen Lúcia e Dias Toffoli).
Não se engane, porém, o ex-presidente. O olho das ruas está atento. As
operações em curso, desde o mensalão, acenderam os faróis da
transparência e a sociedade organizada observa o que se passa no entorno
dos Poderes. Cresce a sensação de que os magistrados não se deixarão
levar por voto de agradecimento. Na quadra que se caracteriza pelo lema -
“passar o Brasil a limpo” -, estreita-se a probabilidade do voto de
retribuição. O que pode ocorrer é o prolongamento de eventual processo
contra ele, eis que são longos os corredores da Justiça.
Nesse ínterim, tentará cumprir suas funções, a começar pela articulação
política. Primeiro desafio: garantir os vagões do PMDB atrelados à
locomotiva do governo. Conseguirá? Pouco provável. Em convenção, o
partido decidiu dar 30 dias para desembarcar da administração federal.
Antecipou essa decisão para o dia 29 próximo. Proibiu seus quadros de
aceitar novos cargos no governo. Pois bem, o deputado Mauro Lopes,
secretário do partido, quebrou o compromisso e assumiu a Secretaria da
Aviação Civil. O VP, Michel Temer, não foi à sua posse. E foi acolhido
pelo Conselho de Ética do PMDB, nesta sexta, pedido para punição do
deputado. A cúpula partidária avisa: Lula não conseguirá demover o PMDB
de sua decisão. Outros partidos também encenam o desembarque, como o
PRB, PP e outros.
Na área política, Luiz Inácio, com toda a lábia, não terá sucesso,
podendo segurar apenas algumas siglas que giram no entorno do PT. Na
área econômica, a revolução que Lula quer fazer não dispõe de munição.
Onde está o dinheiro para implantar a mesma receita de 2008 por ocasião
da crise internacional? Injetar recursos para massificar o consumo? Quem
vai produzir nesse clima de quebradeira, desemprego crescente,
fechamento de fábricas e queda de confiança? A probabilidade de um
programa que tire a economia rapidamente do fundo do poço é zero. Os
ajustes tão cantados só gerarão resultados no longo prazo. Sustar a
reforma da Previdência por desagradar a militância petista é sinal de
que o governo continuará patinando.
Economia afundando, política efervescendo, massas nas ruas pedindo
mudanças, impeachment correndo (em 15 sessões será liquidado na Câmara),
delações jorrando, condenações em série, o que esperar? O
descarrilamento do trem. Não há mais condições técnicas e políticas para
a continuidade do governo Dilma. Só alguns cegos não querem enxergar. O
ciclo do PT chega ao fim. Pode, até, haver alguma sobrevida. Apenas
atrasará as mudanças que a sociedade clama. Urge instalar um governo de
união nacional, com o apoio de partidos políticos e a participação das
organizações sociais. Esgota-se a era do apartheid social. O muro que
separa “nós e eles” precisa ser derrubado.
extraídaderota2014blogspot





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