por Fernando Gabeira O GLOBO
Não se examina o fracasso de projeto mais liberal e a violência urbana
A redução da maioridade penal entrou na agenda política. Já era
discutida nas ruas e insistentemente martelada nos programas populares
de TV e rádio. É um fato de nossa experiência cotidiana: os meninos de
hoje amadurecem mais cedo, sobretudo os que enfrentam as asperezas da
rua. Ao ver uma sucessão de crimes cometidos por adolescentes que voltam
às ruas, um grande número de pessoas se inclina claramente pela redução
da maioridade penal.
Projetado numa decisão do Congresso, este desejo majoritário,
certamente, vai se desdobrar numa vitória da tese. Mas os problemas não
acabam aí. Abre-se todo um caminho espinhoso para colocar em prática a
decisão majoritária, um deles é o evidente gargalo do sistema
penitenciário brasileiro. Ao ler sobre a experiência americana, percebi
que o Brasil não deveria se limitar ao tema da maioridade penal. Lá, com
mais tempo de experiência em prender adolescentes, eles não recuaram na
idade penal. No entanto, estão descobrindo, gradativamente, que é mais
negócio investir na recuperação dos jovens criminosos e não hesitam em
avançar nessa direção.
Ao respeitar a opção majoritária, o Brasil precisaria combinar essas
políticas. O problema é que quase não há dinheiro para as prisões,
quanto mais para projetos. Não posso imaginar o que aconteceria se o
país executasse numa só semana os 300 mil mandatos de prisão. O Estatuto
do Adolescente continha boas intenções. Mas a própria relatora do
projeto, Rita Camata, admitiu que muitos dos seus aspectos positivos
foram deixados de lado. Muitos o veem hoje como uma causa da
criminalidade juvenil.
O debate sobre a redução da maioridade penal desponta como um fato
isolado. Os que são favor ou contra podem se sentir vitoriosos ou
derrotados. Mas as outras variáveis continuam nos desafiando. Ao reduzir
a maioridade, estaremos mais próximos aos Estados Unidos no que diz
respeito à lei, mas, na prática, não estaremos no mesmo caminho de
investir, apostar na flexibilidade da juventude.
Muitos podem ver na redução da maioridade um retrocesso. No entanto, não
se examina o fracasso de um projeto mais liberal e o crescente processo
de violência urbana. O que as pessoas parecem dizer é isto: vocês
tiveram a oportunidade de fazer diferente, mas não está dando certo; por
que não tentar o caminho apontado pela maioria?
A julgar pelo clima no próprio Congresso, acho que a redução passa. Mas
tanto vencedores como vencidos, nesse tópico particular, têm muito a
discutir sobre o futuro imediato. Abre-se um abismo entre o político no
sentido mais amplo e a estrita preocupação eleitoral. Para esta última,
uma simples votação isolada basta para agradar aos eleitores.
Em termos políticos, é preciso construir uma agenda de segurança. São
muitos anos de desprezo pelo tema. Tanto Fernando Henrique quanto Lula
não se anteciparam diante da gravidade do problema. Dilma apenas recitou
uma política escrita para ela, e assim foi porque estaria na lista de
perguntas no debate. Às vezes essa distância que os políticos tomam da
segurança lembra-me a distância de algumas redações no passado de sua
seção policial. Não era considerado um tema nobre, como a educação,
diplomacia, estava sempre envolto em situações desagradáveis de crime e
castigo. Uma política de segurança adequada às circunstâncias nacionais é
uma dívida de nossa geração de políticos. Assim como ficamos devendo
uma resposta a outro tema inconveniente: o saneamento básico.
Nesse particular, a política brasileira é romântica e aristocrática; não
mexe com crimes nem com o esgoto. Se olhamos um pouco melhor, revela-se
nele também o lado pragmático: obras subterrâneas não aparecem nem
rendem votos; a segurança, tratamos, de vez em quando, com uma decisão
popular para acalmar os ânimos.
Procuro seguir as lições do escritor americano H. D. Trudeau: para
conhecer bem um país é preciso visitar suas cadeias. O que vejo são
bombas relógio. Mas as ruas já estão bastante complicadas. Se a política
demorou a se dar conta da necessidade de uma verdadeira política de
segurança, pelo menos vive um momento em que a tecnologia e a
interatividade podem indicar soluções mais baratas e eficazes.
Não são milagrosas. Mas se temos pouco dinheiro, a inteligência pode ser
um fator decisivo. A ausência dos dois é uma combinação insuperável.
Lembro-me que no princípio do governo formulei um pequeno projeto para
reduzir motins nas cadeias. Consistia numa rede na qual as
penitenciárias fariam um relatório cotidiano e um pequeno núcleo os
analisaria. Em quantos lugares as reclamações diárias sobre a comida
estragada não eram algo controlável antes de resultar em violência?
Com o tempo, percebi também a importância do trabalho dos ingleses, que
monitoram os presos e evitam inúmeros crimes na cadeia. Aqui no Brasil,
às vezes, achávamos que, ao perder a liberdade, as pessoas não têm mais
chance de cometer crimes. Hoje essa ilusão desmoronou. De ilusão em
ilusão caída, quem sabe não chegamos lá?
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