por Demétrio Magnoli Folha de São Paulo
A declaração oficial do Congresso do PT celebra Hugo Chávez. Mas
lulopetismo não é chavismo. Bem antes de atingir a encruzilhada
venezuelana, Lula e Dilma fizeram meia-volta, num recuo simbolizado pelo
nome de Joaquim Levy.
"Fora, Levy!", gritam em Salvador alguns petistas sinceramente "bolivarianos" e outros tantos apenas trapaceiros.
Fora, Levy! –eu concordo com eles, por motivos diferentes. O ministro da
Fazenda faz mal para o Brasil, tanto em política quanto em economia.
Levy é um subordinado de Dilma: a política econômica que conduz é a do
governo. Contudo, sua presença no núcleo do governo propicia a difusão
da narrativa pilantra segundo a qual o ministro é um "agente infiltrado
das elites".
A finalidade da lenda é proteger Dilma das consequências de suas próprias escolhas.
Sem Dilma 1 (e Lula 2, por sinal!), não existiria Dilma 2. A contração
fiscal de hoje é o complemento simétrico da farra fiscal de ontem. A
política econômica "de direita" emana, em linha direta, da política
econômica "de esquerda".
À Folha (10/6) Paul Singer disse que "não teria entregue o cargo mais
importante" a Levy, pois "ele é de direita". Singer acha que a
reviravolta podia ser feita "com gente do próprio PT". Nisso, tem razão:
Nelson Barbosa, Guido Mantega ou até mesmo Aloizio Mercadante (ui!)
servem para produzir um ajuste fiscal.
Entretanto, "com gente do próprio PT", os petistas não teriam um
cordeiro sacrificial para camuflar o fracasso da sua "Nova Matriz
Econômica". Levy, o "Judas", embaça o vidro da janela, reduzindo a
nitidez da paisagem política. Fora, Levy!, pois é hora de aprender as
lições da crise.
Dilma não convocou Levy porque ele possui algum saber excepcional, mas
porque ele tem um lastro de confiança que falta à "gente do próprio PT".
O nome do "banqueiro" gera expectativas positivas entre investidores e
agências de classificação de risco: acredita-se que ele oferecerá
estabilidade e segurança.
O lulopetismo usa essa crença como permissão para fazer o mínimo. Sem
Levy, a guinada econômica teria que ser pra valer. Com ele, o governo
ganha tempo, preparando um novo ciclo de populismo fiscal para as
vésperas do ano da graça de 2018.
Segundo Singer, na mesma entrevista, "com gente do PT", o ajuste
"poderia ser feito ao longo de anos", "de uma forma menos violenta".
Nisso, ele não tem razão.
Sem a confiança depositada em Levy, seria impossível fazer um ajuste de
baixa qualidade, que não é acompanhado por reformas destinadas a
aumentar a produtividade da economia. Face ao espectro do rebaixamento
da nota do Brasil, a "gente do PT" seria compelida a praticar uma
cirurgia profunda.
Com o "banqueiro", porém, o governo pode apostar tudo num fiscalismo
primitivo e esquecer as múltiplas ineficiências que bloqueiam o
investimento privado. Sob o seu encanto provisório, o governo pode
conservar os arcaísmos da administração pública, do sistema tributário,
do mercado de trabalho e da política comercial.
À sombra de Levy, a Petrobras continua a brincar de conteúdo nacional e
de regime de partilha no pré-sal. Fora, Levy!, pois já passa da hora de
encarar a realidade.
A operação Levy inscreve-se na tradição brasileira da ofuscação, que
protege os interesses gerais da elite política às custas dos interesses
do país. Com "gente do PT", o lulopetismo seria obrigado a conduzir, à
luz do dia, a política econômica que condena nas resoluções farsescas de
seus congressos.
Com "gente do PT", o país poderia revisitar criticamente uma longa
trajetória de ufanismo neonacionalista revestida com o papel de parede
da redenção popular.
Por outro lado, com o "Cristo" providencial, ficamos reféns de um
governo que não governa e de um Congresso sujeito aos caprichos de
figuras como Renan Calheiros e Eduardo Cunha.
De salvadores da pátria, basta Lula. Fora, Levy!
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