por José Casado O Globo
Nos últimos dias, funcionários do Palácio da Alvorada ficaram surpresos
com as visitas solitárias da presidente à Capela de Nossa Senhora da
Conceição, monumento incrustado no lado esquerdo da residência
presidencial, cujas paredes são revestidas com lambril de jacarandá
folhado em ouro.
A biografia de Dilma Rousseff é conhecida, e não contém traço de
inclinação à religiosidade — exceto no período da Guerra Fria, quando a
guerrilheira “Wanda” rezava pelo catecismo do comunismo. Mais provável é
que a presidente tenha encontrado naquele templo privado um refúgio
para meditação sobre seu futuro.
Ele começa hoje, sob efeito da acachapante derrota de ontem na Câmara.
Seu tempo encurtou e suas alternativas minguaram. O Senado deve decidir
em dez dias a abertura do processo de impeachment. Se renunciar antes,
Dilma garante o direito de se candidatar de novo a um cargo eletivo.
Caso insista em ir “até o fim”, enfrentará o risco da humilhação do
afastamento por 180 dias, seguido pela provável condenação. Aos 68 anos
de idade, isso significaria o epílogo de sua biografia na política,
porque estaria inelegível até 2024.
Em contrapartida, o vice Michel Temer acorda hoje na antessala do poder
central. Aos 75 anos, católico e maçom, o líder do PMDB foi o sócio
escolhido a dedo por Dilma, Lula e PT para composição do condomínio que
acabou implodido pelos inquéritos sobre corrupção.
Ele tem agora a perspectiva real de poder, porém sobram pedras no seu caminho.
Uma delas é a carga negativa que, naturalmente, cabe a quem foi sócio da
administração Dilma até apenas dois meses atrás. Outra é a
multiplicidade de problemas, da Saúde à Economia, que limitam suas
opções no curto prazo e impõem escolhas urgentes — num contexto em que
qualquer espera pelo consenso é inviável, e repleta de riscos. Porque
até o desfecho formal do caso Dilma, Temer será um presidente no limbo.
extraídaderota2014blogspot





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