por Ibsen Pinheiro O Globo
Já falei mais sobre o impeachment de Dilma do que sobre o de Collor, o
que é compreensível: naquele, há vinte e tantos anos, eu tinha um papel
condutor do processo, e, portanto, impositivamente discreto. Agora, sou
tratado como uma espécie de perito, ou consultor, embora não seja nem
num nem outro. O que mais me pedem é comparação, especialmente as
semelhanças.
É mais fácil começar pelas diferenças. Em 1992, o início do processo foi
mais claro. Havia precisa definição do crime de responsabilidade.
Agora, frágeis pedaladas, insuficientes e mal caracterizadas, a
descumprir o primeiro requisito, o de natureza técnico-jurídica. No
segundo requisito, o político-popular, também faltava aquela unanimidade
do sentimento popular de 1992, e, sem essas características,
configurou-se este ano mais a revanche, o terceiro turno.
Em 1992, o presidente de então foi ao Supremo e perdeu, o rito foi
confirmado. Agora, o STF interveio com excesso, quando, por exemplo,
vedou candidaturas avulsas para o plenário compor a comissão, olvidando
que a candidatura avulsa é habitual. Ulysses precisou derrotar Alencar
Furtado e Fernando Lyra. Aécio, ele próprio foi avulso contra Inocêncio,
ou o notório Severino. A rigor, até o presidente da Constituinte de
1823, Antônio Carlos de Andrada e Silva, foi avulso, contra a vontade de
Pedro I.
Agora, as semelhanças, surgidas especialmente depois da delação premiada
do senador Delcidio e das gravações desta semana. A presidente
interferindo numa investigação judicial configura, em tese, o crime de
responsabilidade definido no Art. 85, II, da Constituição Federal:
atentar contra o livre exercício dos Poderes, no caso o Judiciário
(causa, aliás, da prisão do senador Delcidio). Confirma-se minha
antevisão da época, que é mais fácil a unanimidade do que dois terços da
Calmara, na dependência da voz das ruas, configurando-se a mais recente
parecença.
Por fim, a principal semelhança: a necessidade da arbitragem política de
uma crise política. Antes de Collor, só no início do segundo reinado,
em 1840, na crise da maioridade de Pedro II, o Legislativo arbitrou.
Depois, foram os golpes de estado ou as revoluções. Estou convencido de
que os partidos políticos deverão ser os protagonistas da superação da
crise ou serão suas primeiras vítimas.
Está claro que é preciso votar logo o impeachment, contra ou a favor,
para encerrar o tenso momento que vivemos. Tenho certeza que o dia
seguinte, com qualquer resultado, será melhor que o da véspera.
*Ibsen Pinheiro foi presidente da Câmara dos Deputados e conduziu o processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor
extraídaderota2014blogspot





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