por Mônica Waldvogel Folha de São Paulo
Anos atrás, passei por um desses linchamentos ferozes da internet em
razão de um comentário improvisado durante programa da TV paga.
Manifestei na ocasião minha dúvida a respeito de bicicletas serem
alternativa viável de transporte em São Paulo. Ponderei as ladeiras, a
insegurança e o clima.
A reação foi violenta nas mídias sociais, nos blogs, nos comentários de site.
Durante uns 40 dias me ameaçaram de estupro, espancamento e morte
–sentença decretada a "carrocratas" insensíveis e ultrapassados.
Exigiram a abjuração do meu erro, pedido de desculpas, retratação.
Foi muito assustador, e também didático. Aprendi, primeiro, que os
cicloativistas podem até conhecer a rota que nos levará a um mundo
melhor, mas em geral não são lá muito cordiais. Depois, e mais
importante, compreendi o risco que se corre ao invadir, desavisada, um
tema que, a certa altura, já tem militância suficiente para interditar
por variados meios a opinião discordante.
Um mea-culpa público teria sido irrelevante em face da maré cheia de
opiniões educadas pela militância do ciclismo. A máxima culpa possível
de ser admitida foi a de ignorar o modo como os ativismos operam em
relação aos "de fora". Durante o período de ataque, no entanto, garanto
que é muito sofrido distinguir o que é pessoal e o que é luta política
dos outros.
Não é possível saber se os virulentos comentários despejados sobre
Fernanda Torres, entre o primeiro e o segundo artigos que escreveu a
respeito do feminismo para o blog "#AgoraÉQueSãoElas", da Folha – e que
provocaram tanto a ira como um pedido de desculpas–, foram sua estrada
para Damasco.
Fernanda pode ter experimentado uma epifania ao compreender a
impertinência de seu "lugar de fala", esse da privilegiada "mulher
branca de classe média". Só ela sabe se, de fato, sentiu sobre os ombros
a responsabilidade por todas as ignomínias da história ou se ficou
convencida de que contribuíra para as abominações causadas por racismo e
machismo. Porque foi disso tudo que a acusaram.
Pedir desculpas para ativistas é uma escolha entre a grandeza e a
autocomiseração. Qualquer que seja o motivo, a intenção é estancar o
mais rapidamente possível a enxurrada de insultos e recompor a
autoimagem solidária às boas causas.
O problema é que não há mea-culpa capaz de expiar o pecado de ignorar o
cânone de conceitos e o índex de interditos das militâncias.
O caso é que o pedido de desculpas de Fernanda Torres não foi aceito
pelos setores mais duros do feminismo, a quem se dirigia. Fernanda
continuou sendo a "mulher-branca-de-classe-média" acusada de blasfemar
contra verdades cabais.
Não deixa de ser conveniente que uma pessoa pública entre sem aviso nem
malícia num debate como esse. Ativistas de qualquer causa estão sempre
atentos e bem municiados.
A barafunda de argumentos, ofensas e desqualificações com que atacam é
tão avassaladora que a retratação do pecador é inócua. Tornar alguém um
saco de pancadas pela maior duração possível é o modo de operar da luta
política no século 21.
Entretanto, não tem sido fácil para alguns grupos feministas firmar no
mundo a ideia de que vivemos numa "cultura do estupro" –e talvez isso
explique a agressividade com que sustentam o argumento.
Relatem-se a dor e o sofrimento de quem passou por episódios de
violência, e, ainda assim, não sabemos se seremos todos convencidos um
dia de que há um estuprador em cada ser do sexo masculino. Ou um
repugnante abusador. Ou, no mínimo, um assediador abjeto.
As ideias têm de ser experimentadas como os vestidos. Nem todas servem,
nem todas aderem ao corpo social, à época, ao que já é conhecido; há
ideias e militâncias que não conseguirão se firmar.
Sendo a liberdade de expressão a mãe de todas as causas, bom seria se as
diferentes topografias da fala fossem levadas em consideração.
Por enquanto, ativistas parecem lutar por um direito intangível e
inacessível: o de não serem ofendidos pela opinião dos outros. Esse é um
mundo impossível.
Porque, como alguém disse no Twitter, "se organizar direitinho, todo mundo poderá se ofender".
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