José Casado: O Globo
Na tarde de uma terça-feira da Quaresma de 125 anos atrás, o Congresso
Constituinte promulgou a primeira Constituição que, entre outras coisas,
dizia: “Exerce o Poder Executivo o presidente da República”.
Desde então, o Brasil já experimentou o presidencialismo imperial, o
parlamentarismo, as ditaduras (civis e militares) e até os triunviratos
governamentais. A última triarquia ocorreu em 1969. Acabou imortalizada
nos livros de História pelo falecido líder da oposição, deputado Ulysses
Guimarães, que só se referia ao general, brigadeiro e almirante da
Junta Militar como “Os Três Patetas’’.
A presidente tentou explicar que não pretendia resguardar seu
antecessor, mentor e principal eleitor, da investigação criminal no
juízo federal de Curitiba. Tentou até demarcar a fronteira entre o seu
poder — legitimado nas urnas — e o que concedia a Lula. Viu-se obrigada a
repetir a palavra “não” por meia centena de vezes. Exauriu-se: “Minha
relação com ele não é de poderes”.
Duas horas depois, os repórteres Marcelo Cosme e Vladimir Neto, da
Globonews, divulgaram trechos de um telefonema que Dilma fez a Lula às
13h32m, antes do anúncio oficial. Lula estava sendo gravado pela
polícia, com autorização judicial. A íntegra da conversa foi liberada
pelo juiz Sérgio Moro no fim do expediente, na rotina do processo sem
sigilo contra Lula que tramita em Curitiba.
O áudio mostrou Dilma avisando Lula, que ainda não era ministro: “Eu tô
mandando o Messias junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso
de necessidade, que é o termo de posse, tá?!”
A iniciativa da presidente num ato explícito de obstrução de Justiça,
para proteger Lula numa investigação criminal, deixou perplexos juízes
do Supremo, senadores e deputados. “Ela atropelou a Carta”, comentou um
ministro. “Capitulou em vários crimes”, observou outro.
Na Câmara não foi diferente, decidiu-se acelerar o processo de
impeachment, se não houver renúncia. “Ela cometeu uma ofensa direta aos
princípios básicos de organização da nação brasileira”, disse o deputado
Miro Teixeira (Rede-RJ). “A renúncia agora é uma imposição, ela está
obrigada a renunciar”.
No Senado votava-se uma emenda constitucional. “Não há mais saída”,
criticou o líder da oposição Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). Atônita, uma
das líderes do bloco governista, a senadora Vanessa Graziottin
(PCdoB-AM), pediu a suspensão imediata da sessão. Renan Calheiros,
presidente, aceitou a sugestão imediatamente.
Já havia uma multidão protestando na Avenida Paulista, em São Paulo, e
outra em frente ao palácio presidencial, quando a segurança retirou
Dilma Rousseff pelos fundos do Planalto. O exótico projeto de poder
desenhado por Dilma e Lula para um bi-presidencialismo desmoronava numa
noite de fim de verão. Na arquitetura, esqueceram o principal: o
respeito à Constituição.
extraídaderota2014blogspot





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