por Ana Maria Machado Com O Globo
Mas vem a hora em que o gigante se espreguiça como se quisesse acordar. Será que abre os olhos e se levanta?
A que ponto chegamos... A frase se repete nas conversas sobre a crise
moral, econômica e política do país. Como foi possível? Como nos
deixamos iludir desse modo? Há quem busque as raízes da complacência ou
autoengano no cartorialismo lusitano, no clientelismo, na troca de
favores que nos veio de herança desde o primeiro Cabral. Já na carta em
que anunciava ao rei de Portugal a nova terra, o escrivão pedia um favor
para sua família em troca da boa notícia. Depois, tivemos séculos de
escravidão, consolidando desigualdade, injustiça, violência, ignorância.
Ambiente ideal para fomentar populismo e salvacionismo.
Não faltam exemplos históricos desse legado. Mas não bastam para
explicar como a corrupção se renova e reinventa, se espalhou tanto e
escorre por todas as frestas. Para entender como chegamos a esse ponto, é
bom examinar o trabalho conjunto de diferentes fatores. A impunidade é
um deles. O inchaço do Estado é outro. O messianismo colabora. A arte de
mentir também faz sua parte, e bem grande, sobretudo para gente
facilmente enganável porque a educação lhe é negada. Para sermos um país
diferente, vamos precisar mudar tudo isso.
A impunidade vem dos mecanismos criados por quem tem poder, para aí se
manter. Um eficiente sistema de infinitas instâncias protelatórias e
incontáveis recursos e tecnicalidades para afastar de si as penas da
lei. Estas só se aplicam a quem não tem como utilizá-los em seu
benefício. Daí o juiz Sérgio Moro ter saudado, como uma janela fechada
para a impunidade, a decisão do STF de fazer cumprir as penas já após a
condenação em segunda instância.
Para bem manter a teia de privilégios, é necessária uma rede de
cúmplices, igualmente beneficiados. Nomeações então aparelham a
administração, feitas por recomendação ideológica ou intercâmbio de
favores, não por merecimento e capacidade. Esse Estado inchado passa a
sustentáculo do sistema. Burlando a Constituição, segundo o Jusbrasil,
nosso país tem 600 mil funcionários públicos sem concurso, dos quais
23.941 em cargos de confiança (o dado é do Ministério do Planejamento). A
França e a Alemanha têm uns 600 cada. Nosso sistema político tem
números igualmente exagerados, com excesso de ministérios, de cargos, de
deputados, de partidos, de municípios — e a toda hora surgem mais, tudo
sustentado com nosso dinheiro. Isso ajuda a explicar o excesso de
impostos, os gastos exorbitantes em campanhas milionárias, e a
vergonhosa qualidade dos lamentáveis políticos assim eleitos. Sem falar
na recusa de cortes no custeio da máquina administrativa.
Para fingir que é necessário manter esse absurdo tupiniquim, a mentira
campeia, a fim de desqualificar os outros e ser messiânico, garantindo
que fora do Salvador de Pátria e seu bando não há nada de bom, nenhuma
competência, honradez ou virtude. Mas há também que demonizar a
iniciativa privada e o lucro, criando infinitos obstáculos burocráticos
ao empreendedorismo individual e aos pequenos empresários, de modo a
garantir a reserva de mercado e os privilégios a algumas grandes
empresas escolhidas, que ajudam a sustentar esse esquema numa bilionária
troca de favores. As recentes investigações policiais estão revelando a
extensão dessas práticas e os fios que as ligam às campanhas
eleitorais.
Essas campanhas devem ser longas, caras, cheias de truques. Para que o
esquema dê frutos e perpetue a ocupação do poder, é indispensável
utilizar espertas técnicas de marketing, sem qualquer escrúpulo de
mentir. Caluniam-se os adversários, promete-se qualquer coisa, varia-se
de “paz e amor” a jararaca, conforme a necessidade do momento.
Produzem-se filmes com imagens de livros sumindo das mãos das crianças
ou pratos de comida desaparecendo das mesas se o eleitor ousar votar de
acordo com sua preferência e trair o Grande Pai, a quem deve obediência
para lhe garantir a vitória na guerra. Acusa-se o outro de tudo aquilo
de que se poderia ser acusado. Ganha quem for o gatilho mais rápido.
E isso cola? Cola, se garantido pela educação de péssimo nível, num
sistema que nega o contato com ideias variadas que poderiam desenvolver a
visão crítica. Interessa ao sistema clientelista que as escolas recusem
leitura literária (que ensina a ver de outros pontos de vista) e
qualquer estudo baseado na matemática. A cegueira à realidade da
economia assegura a docilidade diante de decisões baseadas em dogmas
ideológicos, e não em análises racionais. E quando a consequência desses
erros gera grave crise econômica, nada como um pouquinho mais de
retórica e marketing para insistir no erro e enganar os trouxas de novo.
Mas vem a hora em que o gigante se espreguiça como se quisesse acordar.
Será que abre os olhos e se levanta? Afinal, era a promessa bíblica:
bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão
saciados. Talvez seja essa esperança que, ao celebrar a justiça, as ruas
em verde e amarelo lembraram a todos no domingo — que em menos de uma
semana já parece no século passado.
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