por Gil Castello Branco O Globo
No Brasil, o gado e seus subprodutos frequentemente explicam transações econômicas, no mínimo estranhas
Na Índia, a vaca é considerada um animal sagrado. Assim, não pode ser
morta, ferida e tem passe livre para circular, sem ser incomodada, pelas
ruas das principais cidades do país. Na crença hinduísta, muitos deuses
têm animais como montarias, e estes se tornam sacros. A vaca é
considerada a montaria de um dos deuses mais populares do país, o Shiva,
responsável pela renovação. Desta forma, não convide um indiano para um
churrasco, pois a gentileza poderá ser considerada uma ofensa.
No Brasil, porém, o bovino não tem essa conotação mística. Ao contrário,
o gado e seus subprodutos frequentemente explicam transações
econômicas, no mínimo estranhas.
O ex-governador do Distrito Federal Joaquim Roriz, por exemplo, foi
condenado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios por
improbidade administrativa no caso conhecido como Bezerra de Ouro. Em
2007, quando era senador, ele descontou dois cheques do fundador da Gol,
Nenê Constantino, no Banco de Brasília (BRB), no valor de R$ 2,2
milhões. A operação foi considerada estranha, pois nenhuma das partes
tinha conta no BRB, levantando a suspeita de lavagem de dinheiro. Na
época, Roriz afirmou que pegou o dinheiro emprestado para comprar o
embrião de uma bezerra de raça, em São Paulo.
O presidente do Senado, Renan Calheiros, também responde no Supremo
Tribunal Federal (STF) à acusação de improbidade administrativa. A ação
remonta a um caso de 2007, que levou Renan à renúncia do cargo de
presidente do Senado. A Procuradoria da República no Distrito Federal
considera que o senador recebeu propina da construtora Mendes Junior
para pagar despesas pessoais de relação extraconjugal com uma
jornalista, com quem Renan tem uma filha. Na ação consta que um lobista
da empreiteira fazia os pagamentos à jornalista e, em contrapartida, a
construtora era beneficiada por emendas parlamentares apresentadas pelo
senador.
Para comprovar que tinha condições de arcar com os gastos sozinho, o
senador apresentou notas fiscais de vendas de bois. Mas a Polícia
Federal concluiu que aqueles documentos não garantiam recursos para
quitar a pensão alimentícia e aluguéis e, ainda, que os papéis não
comprovavam a venda de gado. Assim, além das investigações da Lava-Jato
relativas ao senador, seria interessante o STF concluir o julgamento do
caso que ficou conhecido como “os bois de Alagoas”.
O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que tenta salvar a
sua pele no Conselho de Ética da Casa, é acusado de ter recebido cerca
de R$ 5 milhões em propina do esquema de corrupção na Petrobras. A
defesa do deputado alega que antes de entrar na vida pública — no começo
dos anos 90, quando assumiu a presidência da Telerj — Cunha descobriu
um verdadeiro filé mignon: a venda de carne processada e enlatada em
consignação para países africanos. Desta forma, com os lucros da carne
enlatada e de aplicações financeiras, o deputado abriu dois “trustes” e
não contas no exterior. O truste consiste na entrega de um bem ou valor a
uma instituição para que seja administrado em favor do depositante ou
de outra pessoa por ele indicada. A história está apenas começando. Vale
lembrar que até hoje Maluf afirma não ter dinheiro no exterior...
Mais recentemente, o pecuarista amigo de Lula José Carlos Bumlai — o
homem que tinha “passe livre” no Palácio do Planalto — foi preso por
suposta operação fictícia de dação de “embriões de gado de elite” para
agropecuárias do Grupo Schahin. Esse contrato de sêmen de boi com o
grupo seria a forma de simular a quitação formal do empréstimo de R$ 12
milhões concedido em 2004 pelo banco ao pecuarista. O dinheiro, que
nunca foi devolvido para a Schahin, teria abastecido os cofres do PT e
campanhas do partido, entre elas a reeleição do ex-presidente Lula, em
2006, conforme suspeita a força-tarefa da Operação Lava Jato. Ao que
indicam as delações premiadas, o valor de R$ 12 milhões dados a Bumlai
em 2004 foi pago com um contrato de operação do navio-sonda Vitória
10.000, dirigido irregularmente para a Schahin. A dação de sêmen é
conversa para boi dormir.
Até o fim da Lava-Jato, o rebanho de inocentes que se defende com o gado
deve aumentar. Para o Ministério Público, em muitos casos, tem boi na
linha. As relações de alguns desses políticos/empresários com a pecuária
parecem ser semelhantes às de um indiano com uma picanha malpassada.
Na Índia, outros animais também são santificados. O rato, por exemplo, é
considerado a montaria do Deus Ganesh. Mas esta é uma outra
história....
Gil Castello Branco é economista e fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas
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