Ruy Fabiano: O Globo Com Blog do Noblat -
Se o governo Temer vier a cair, não terá sido por suas diferenças, mas
por suas semelhanças e cumplicidades com a ordem deposta. O ponto
nevrálgico é o mesmo: corrupção. Mas as proporções, pelo que até aqui se
conhece, são outras.
Antes de mais nada, as delinquências do governo petista foram concebidas
e praticadas no curso de sua gestão. No atual, o que há são os reflexos
dessa parceria de 13 anos e meio, entre PT e PMDB. Não se registra
nenhuma infração cometida após a posse.
O que pesa sobre Romero Jucá, por exemplo, não se refere a atos que
tenha praticado como ministro de Temer. Idem o ex-ministro da
Transparência, Fabiano Silveira. As gravações de Sérgio Machado, que
ainda podem levar a novas degolas, precedem o impeachment. E há as
delações de Nestor Cerveró e Odebrecht, que, mesmo atingindo mais o PT,
contemplam também seus parceiros.
Temer, além de encontrar um país arruinado, é obrigado a servir-se do
material humano disponível. As lideranças mais influentes no Congresso
são figuras carimbadas, que não inspiram confiança. Mesmo assim, têm
votos, sem os quais nada é possível fazer, a começar pelas mudanças na
economia.
Numa conjuntura em que o presidente (suspenso) da Câmara, Eduardo Cunha,
em que pese o seu obeso prontuário, ainda detém votos suficientes para
sabotar iniciativas do governo, é possível visualizar as dimensões do
desafio com que Temer se defronta.
Ei-lo, em síntese: sanear o país com parte dos que o poluíram. Nem todos
os corruptos eram do PT, embora ali estivesse a chefia da quadrilha.
Mas a parceria era pluripartidária, sem preconceitos ideológicos,
incorporando eventualmente oposicionistas.
Vigeu o ecumenismo bandido, a coalizão pelo avesso. Alguns sobreviveram e
aderiram à nova ordem, assumindo o tom moralista dos indignados.
Política é também – e, às vezes, sobretudo - teatro.
Há grandes canastrões no Congresso, capazes de encenar os mais ecléticos scripts, sem que a maior parte da plateia os perceba.
Há grandes canastrões no Congresso, capazes de encenar os mais ecléticos scripts, sem que a maior parte da plateia os perceba.
Mas o radar da Lava Jato vem, aos poucos, detectando-os. Paradoxalmente,
porém, o que é uma solução, do ponto de vista da moral pública,
tornou-se um problema político.
A presença desses personagens – uns ocultos, outros nem tanto – mantém o
ambiente tenso e impede que o mercado sinta que se está entrando numa
fase de estabilidade, propícia aos negócios. No espaço de uma semana,
dois ministros foram demitidos, não pelo que estavam fazendo, mas pelo
que fizeram.
Quantos mais haverá? Eis uma pergunta que só a Força Tarefa pode
responder, mas o fará gradualmente, pela própria natureza do ofício, que
exige sigilo, cautela e respaldo judicial.
Como se sabe que o grau de comprometimento da classe política é bem mais
amplo que o já exposto – e esta semana novas delações o demonstraram -,
o governo pisa em ovos.
Além do dado concreto de uma economia em queda livre, com 11 milhões de
desempregados – e, pior, sem perspectivas de se reempregar -, lida com
um cenário marcado por suspeições, que não poupam o próprio presidente
da República.
Mesmo dele, o que se diz é que “até aqui” nada lhe pesa contra – “mas
não se sabe; afinal, foi o Lula quem o fez vice da Dilma, por duas
vezes”. É verdade, mas, mesmo que isso não implique culpa prévia,
confere conteúdo verossímil às especulações.
E é delas que se nutrem os defensores da ordem deposta, os que não
conseguiram livrar-se do flagrante delito. Querem voltar, mas, mesmo com
escassas chances e expectativas de consegui-lo, satisfazem-se em
vingar-se dos antigos parceiros.
Governar sob a tutela de uma operação policial, cujo público-alvo é a
classe política – tanto os que deixaram o poder como os que acabam de
chegar -, retira do governante sua ferramenta básica: a firmeza nas
decisões, que permite enfrentar pressões corporativas.
Isso explica o recuo no caso da fusão do Ministério da Cultura com o da
Educação e a concessão à pauta-bomba do Congresso, que aumentou salários
de servidores em plena fase de depressão econômica. Temer tem evitado
confronto com grupos organizados, que se auto-intitulam “movimentos
sociais”, cujo comando está no partido deposto.
O receio está no fato de que é refém não apenas da Lava Jato, mas também
dos que com ela estão implicados, muitos dos quais figuram entre seus
aliados. Em tal contexto, a pergunta é: qual o prazo de validade de seu
governo?
extraídaderota2014blogspot





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